segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Lisbon South Bay (um ano e três meses depois...)

Sentado ao sol da manhã
Vou estar sentando quando a noite vier
A ver os navios a chegar
Então vejo-os novamente a partir, sim

Cacilhas, ed. Supercor, 1808, década de 1980.
Imagem: Delcampe

Estou sentado no cais da baía
Assistindo ao vazar da maré, ooh
Estou sentado no cais da baía
Perdendo tempo

Rio Tejo, muralha de cantaria junto à Praça do Comércio, Henri Cartier-Bresson, 1955.
Imagem: Pinterest

Deixei minha casa na Georgia
Vim para a baía de Frisco
Porque nada tinha para que viver
E parece que nada vai surgir no meu caminho


Então, apenas vou sentar-me no cais da baía
Assistindo ao vazar da maré
Estou sentado no cais da baía
Perdendo tempo

Lisboa 30, Maluda, 1985.
Imagem: Modus vivendi

Parece que nada vai mudar
Tudo ainda continua o mesmo
Não posso fazer o que dez pessoas me dizem para fazer
Então, acho que vou permanecer o mesmo, ouçam

Vista de Lisboa e do Tejo tomada do castelo de S. Jorge, Henri Cartier-Bresson, 1955.
Imagem: Pinterest

Aqui sentado a descansar meus ossos
E esta solidão não me deixa só, ouçam
Duas mil milhas vagueio
Apenas para fazer desta doca a minha casa, agora

Sarner, Eric, (argumento), Prado, Miguelanxo, (desenhos), Carta de Lisboa, Meribérica/Líber, 1998
Imagem: Casario do Ginjal

Vou apenas sentar-me no cais de uma baía
Assistindo ao vazar da maré, ooh
Sentado no cais da baía
Perdendo tempo (1)


(1) Writers: Stephen Lee Cropper, Otis Redding, 1968; Copyright: Cotillion Music Inc., East Memphis Music Corp.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Almada, reportagem fotográfica Paulo Guedes, c. 1903

Paulo Emílio Guedes (1886-1947), nasceu em Mondim de Basto da Beira a 23 de Março de 1886 e faleceu em Lisboa a 1 de Dezembro de 1947.

Papelaria e tipografia Paulo Guedes & Saraiva, Joshua Benoliel, início do século XX.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Foi fotógrafo de imagens que posteriormente editava em postais ilustrados através da sua firma "Papelaria e Tipografia Paulo Guedes e Saraiva", em 1912 já tinha publicado cerca de mil novecentos postais diferentes.

Os agrupamentos temáticos abrangem panorâmicas de Lisboa, aspectos de rua, feiras, jardins, tipos populares, interiores e exteriores de edificios, acontecimentos sociais e festividades religiosas. Sem nunca ter abandonado a actividade de fotógrafo, trabalhou nos últimos anos da vida como livreiro. (1)

Paulo Emílio Guedes & Saraiva, verso de Bilhete Postal Ilustrado, UPU, década de 1900.
Imagem: Nazaré em Postal Ilustrado

Papelaria e Tipografia Paulo Guedes e Saraiva, Aurea 80, Portugal - Lisboa

Grande empresa editora de B.P.I.´s de grande qualidade e de predomínio fototipico. Como F. A. Martins , utilizou e cedeu clichés de e a outros editores, tendo editado para a província , por encomenda e com clichés de fotógrafos locais.

Conhecem-se-lhe varias colecções editadas , com numeração geral em romano ou em árabe pela ordem crescente e com sub numeração por localidade ou sub-colecções temáticas. A sua colecção geral intitula-se "Portugal " em que sobressaíram reportagens da situação politica e da vida portuguesa. Subdividiu-se em varias sub-colecções ou colecções temáticas.

A edição relativa ao concelho de Almada compreende, que seja do nosso conhecimento, os postais numerados de DCCLXXXV a DCCCVI da colecção geral:

  • 01 Chegada do vapor a Cacilhas
  • Almada, Chegada do vapor a Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 01, década de 1900.
    Imagem: AVM

  • 02 Um desembarque em Cacilhas
  • Almada, Um desembarque em Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 02, década de 1900.
    Imagem: Delcampe, Bosspostcard

  • 03 Pharol de Cacilhas
  • Almada, Pharol de Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 04 Chafariz de Cacilhas
  • Almada, Chafariz de Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 04, década de 1900.
    Imagem: Alexandre Flores, Almada antiga e moderna... Cacilhas, Almada, ... 1987

  • 05 Largo do poço em Cacilhas
  • Almada,  Largo do Poço em Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 05, década de 1900
    Imagem: Delcampe

  • 06 Uma das muralhas do castelo
  • Almada, Uma das muralhas do castelo, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 06, década de 1900.
    Imagem: Delcampe

  • 07 O interior do castelo
  • Almada, O interior do castelo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 7, década de 1900
    Imagem: Delcampe

  • 08 Uma das peças do castelo
  • Almada, Uma das peças do castelo,  ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 1, década de 1900.
    Imagem: AVM

  • 09 Lado sul (vista panorâmica com o n° 10)
  • Almada, Lado Sul, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 09, década de 1900.
    Imagem: Delcampe, Bosspostcard

  • 10 Lado norte (vista panorâmica com o n° 09)
  • Almada, Lado Norte, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 10, década de 1900.
    Imagem: Delcampe, Bosspostcard

  • 11 Camara Municipal
  • Almada, Camara Municipal,
    ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 11, década de 1900.
    Imagem: Delacampe

  • 12 Bocca do vento
  • Almada, Boca do Vento, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 12, década de 1900.
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 13 Jardim da Cova da Piedade
  • Jardim da Cova da Piedade, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 13
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 14 Uma Burricada
  • [Cova da Piedade], Uma Burricada, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 14, década de 1900.
    Imagem: Delcampe, Bosspostcard

  • 15 Caramujo
  • Caramujo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 15, década de 1900.
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 16 Romeira

  • Almada,  Romeira, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 16, década de 1900
    Imagem: Alexandre Flores, Almada antiga e moderna... Cova da Piedade, Almada, ... 1990

  • 17 Largo Lago da Quinta Real do Alfeite
  • Almada,  Largo da Quinta Real do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 17, década de 1900
    Imagem: Delcampe

  • 18 Palácio Real do Alfeite
  • Almada, Palácio Real do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 18, década de 1900
    Imagem: Delcampe

  • 19 Praia do Alfeite
  • Almada,  Praia do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 19, década de 1900
    Imagem: Delcampe

  • 20 Cacilhas
  • Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 20, década de 1900.
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 21 Ginjal
  • Almada, Ginjal, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 21, década de 1900.
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 22 n. id.
  • 23 Typos de catraeiros
  • Typos de Catraeiros,
    ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 23, década de 1900.
    Imagem: Delcampe

A extinção da Papelaria Guedes herdeira da firma Paulo Emilio Guedes ocorreu antes de 1922. (2)


(1) Arquivo Municipal de Lisboa
(2) Vicente Sousa, Neto Jacob, Portugal no 1º quartel do século XX documentado pelo bilhete postal ilustrado...,
Bragança, Câmara Municipal, 1985, cf. Nazaré em Postal Ilustrado

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A muleta de pesca, por A. A. Baldaque da Silva

Um desenho bem simples e genuinamente portuguez: A muleta de pesca, deslisando á superficie das aguas, desfralda ao vento as ponteagudas vélas e deixa ver a seu bordo os arrojados tripulantes, ao longe descobre-se a linha da terra, e no ultimo plano accumulam-se os tons da atmosphera.

Muleta junto ao Cabo da Roca, João Pedrozo (1825-1890).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Quantas idéas, porém, desperta este singelo quadro a quem sobre elle attenta!

Ilustração de Rafael Monleón y Torres (1840-1900).
Imagem: Hemerotaca Digital

O barco, como assumpto principal, representado no seu conjuncto pelo casco, leme, mastro, vergas, cabos e vélas, synthetisa a arte nautica, que arrancou ao engenho humano um domicilio e um meio de transporte no vasto liquido que cobre o globo, assegurando a existencia e o isolamento d'aquelles que lhe confiam as suas vidas;

o mar, elemento magestoso e profundo, repleto de mysterios e tempestades, lança no espirito de quem o contempla uma preoccupação vaga, mistura de receios e encantos, que provoca á meditação;

os pescadores, nas suas melancholicas attitudes, fazem recordar as desoladas familias, que deixaram nos lares em afervorada prece, unico amparo que lhes fortifica os animos; a terra, ao longe, aviva a saudade, conduzindo á reminiscencia do passado;

e a atmosphera limita o pensamento, não permittindo sondar o espaço indefinido, que a imaginação intenta traspassar, em poderoso vôo.

D'esta multidão de idéas associadas e impressões commoventes, resulta um amplo quadro, delineado em um sem numero de motivos, que o tornam complexo e grandioso.

Já o mar, impellido pelo vento, encrespa a superficie; monticulos de plumbeas vagas, recortadas por franjas de branca espuma, balouçam a muleta, que completamente alagam, fustigando ao mesmo tempo os tripulantes, que ensopam até á medula.

O aspecto carregado do céu atemorisa os pescadores; ouvem o ranger do apparelho, sibilando gemidos que entibiam os animos; e, ora fortalecidos pela experiencia de longos annos, ora sobresaltados pela lembrança das mães, mulheres e filhos, que ficam ao desamparo, proseguem na dura faina.

Entra a vaga com furia, destruindo a borda; rasga-se a véla grande; está o barco desmastreado; pesada nuvem despejou em catadupas a abundante agua que transportava; exgotam á força de braços energicos e possantes o liquido que faz adornar a muleta; desenrascam o mastro e a véla, e aguardam serenamente o destino que a providencia divina lhes reserva.

Mas, já descobre o céu velho, tinto de azul escuro, velado, em grande parte, pelos vapores esbranquiçados que correm suspensos no ar. Um primeiro raio do sol, e, em seguida, todo o feixe luminoso, bate em cheio no maravilhoso quadro, illuminando os tons, aquecendo as côres, e dando vida e alento aos tripulantes. 

O vento amainou; a ondulação vae diminuindo pouco a pouco de amplitude; os pescadores sacodem os encharcados fatos, e preparam o mastro e o panno. Já verdeja a collina e rescende o perfume da vegetação marginal; as mães riem para os filhos, que fazem saltar nos braços, e os pobres operarios do mar sentem nova vida invadir-lhes o endurecido organismo.

Muleta no rio Tejo, Luis Ascêncio Tomasini,  1881.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Entre os variados typos de embarcações portuguezas, possue certamente um original sabor artistico a "muleta" usada pelos pescadores do Seixal e do Barreiro, para o lançamento da muito antiga rede de arrastar a reboque pelo fundo, denominada "tartaranha".

A muleta tem o fundo largo e chato; a proa, excessivamente boleada, remata em arrufado be-que; a popa, muito inclinada, recua em cima; caracteristicos estes que, juntos ao grande amassa-mento dos flancos, dão ao casco o aspecto de uma tosca naveta normanda do seculo XIII.

Ilustração de Rafael Monleón y Torres (1840-1900).
Imagem: Hemerotaca Digital

O apparelho da muleta compõe-se de um mastro, muito inclinado para vante, onde iça a verga de uma véla grande triangular, latina, e de dois compridos paus, denominados batelós, deitados pela proa e pela popa, que servem para amurar e caçar as outras vélas, e, ao mesmo tempo, para nas extremidades amarrarem os cabos que seguram a rede, quando esta funcciona.

Ilustração de Rafael Monleón y Torres (1840-1900).
Imagem: Hemerotaca Digital

Á ré, caça no extremo do batelós um triangulo, que iça na penna da véla grande, denominado varredoura de cima, e, por baixo, outro, a varredoura de baixo; e em estaes que vão da cabeça do mastro pai:a a roda de proa e para o batelós de vante, içam umas seis a sete pequenas vélas, chamadas toldos, muldins, varredoura e cozinheira, que, segundo o seu numero, compensam o effeito das vélas de ré, quando a embarcação se mantem atravessada, durante a pesca.

As muletas largam a rede proximo da emboccadura do Tejo, no começo da enchente, e, mareando o panno, vão caindo ao longo da costa da Trafaria e margém do sul, montando o pontal de Cacilhas e continuando a derivar pelo Mar da Palha, até terem completado o lance, recolhendo então a rede, e apanhando o peixe que vem no sacco.

Uma fragata inglesa de través frente à margem sul do Tejo com pequenas embarcações nas proximidades, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Outras vezes, arrastam fóra da barra, desde o largo até á enseada de Entre Cabos. Este typo de embarcações vae acabando, a ponto de actualmente existirem apenas duas. Tem sido substituido pelos modernos bateis, que pescam pelo mesmo systema.

No museu de archeologia naval de París, ha um modelo reduzido da nossa muleta, que o ministerio da marinha offereceu áquelle estabelecimento; e mais dois outros modelos figuram nas collecções da escola naval, e do museu marítimo da escola industrial Pedro Nunes, de Faro.

Muleta, modelo da Escola Naval que pertenceu ao Museu de Marinha (1896).
Imagem: Internet Archive

A rede tartaranha, empregada pela muleta, consta de um sacco com malha muito miuda, alargando para o lado da bôcca, onde ligam duas bandas de rede, muito compridas e estreitas, na extremidade das quaes amarram os cabos que sustentam o apparelho dentro de agua, e que recebem o nome de alares.

O sacco tem duas costuras convergentes, prendendo a face de cima á de baixo, formando uma garganta afunilada e dois cantos triangulares, denominados beliches, onde o peixe se accumula sem poder sair, na occasião de suspender a rede. A tartaranha constitue uma variedade muito notavel das artes de arrastar, sendo em Portugal unicamente empregada pelos pescadores do Seixal e do Barreiro.

Velame do bote-da-tartaranha: 1. Varredora de cima; 2. Varredora de baixo; 3. Grande; 4. Pano da vara; 5. Polaca; 6. Varredora da proa; 7. Cozinheira; 8. Cozinheira; 9. Toldo.
Imagem: Maria Lucia De Nicolò, Tartane cf. E. Curtinhal, Barcos, memórias do Tejo, Ecomuseu Municipal do Seixal 2007

Imagine-se este phantasma colossal, com o enorme ventre dilatado, a bôcca escancarada, os braços estendidos, movendo-se no abysmo oceanico, engulindo milhares de seres differentes, e esmagando, com o pesado corpo, tudo que encontra na sua devastadora digressão pelo fundo.

A acção destruidora deste gigantesco engenho do mal exerce-se sobre a vegetação submarina; sobre os ovulos e germens das mais preciosas especies, que nas plantas encontram auxilio para o seu desenvolvimento embryonario; sobre a fauna e flora, que servem de alimento ás especies novas e adultas; e sobre a propria colheita, que, na maior parte, fica inutil para qualquer applicação proveitosa.

O damno causado por estas redes, tem dado logar á promulgação de diversas medidas repressivas do seu exercicio, desde 9 de abril de 1615, data do primeiro alvará que as prohibiu por tempo de oito annos, para favorecer os pescadores do alto, da cidade de Lisboa, contra os que pescavam com as ditas redes, procurando remediar a falta de pescado, que attribuiam ao uso das tartaranhas. 

E, como a arte, na sua progressiva evolução, nem sempre dá resultados beneficos, acontece que este systema de exploração dos seres que habitam as aguas, se tornou ainda mais nocivo com o emprego da navegação a vapor no arrastamento do immenso sacco, imprimindo-lhe maior velocidade e intensidade de acção, motivo por que o decreto de 30 de julho de 1891, confirmando a previsão do velho alvará, estendeu a prohibição ao moderno arrastão, rebocado pelos vapores de pesca.

A muleta de pesca, pela sua fórma exquisita e pittoresca, e pelo gosto artistico que revela, tem sido representada em modelos, desenhos, gravuras e aguarellas, merecendo a predilecção de muitos admiradores da sua belleza, entre os quaes se contam o finado Rei D. Luiz, El-Rei D. Carlos, o almirante Páris [François Edmond Pâris (1806-1893)], Pedroso, Pinto Basto, Camacho, Vaz, Casanova, o auctor destas linhas, e o sr. R. Monleon [Rafael Monleón y Torres], de quem são os bellos desenhos que acompanham este artigo, e que representam as mais minuciosas particularidades do casco, apparelho, velame e accessorios, da muleta.

Marinha, Muleta, D. Carlos de Bragança.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Que bellas applicações se podem fazer da muleta de pesca na ourivesaria, na ceramica, na tapeçaria, e em muitas outras artes uteis e decorativas!

A fórma do seu casco dá esplendidamente, imitada em porcelana ou barro, uma admiravel terrina ou saladeira, e um elegante centro de mesa ou floreira, com especial aspecto maritimo, genuinamente portuguez. Em marmore, pôde modelar-se com ella um lindo tanque ou baptisterio, de puro estilo nautico nacional. Tem desusada e significativa applicaçáo o desenho da muleta no lavor central de um tapete, alcatifa ou cortinado. Em oiro, prata, bronze ou ferro, ou pela combinação e entrelaçamento d'estes me-taes, quantos objectos de arte se podem conseguir com a fórma ou delineamento geral da muleta de pesca?!

Ilustração de Rafael Monleón y Torres (1840-1900).
Imagem: Hemerotaca Digital

Carecemos tanto de um estylo genuinamente caracteristico da nossa feição especial de povo de navegadores, cheio de tradições maritimas, perpetuadas em poemas sublimes e monumentos grandiosos, que é forçoso reunir, e methodisar em formulas praticas, os elementos simples e as concepções geraes, que devem orientar o nosso gosto artistico na composição dos productos da industria nacional. 

A arte portugueza não pôde desenvolver-se sem conseguir este desideratum.

Campolide, 16 de março de 1895 (1)


(1) A. A. Baldaque da Silva, Muleta de pesca, Arte Portugueza n.° 5, 5 de Maio de 1895

Artigo relacionado:
Jimmy Green's, a muleta do Tejo

Informação relacionada:
Fernando Gomes Pedrosa, A Muleta e a Tartaranha (séculos XV-XX)

Maria Lucia De Nicolò, Tartane

Leitura relacionada:
Léopold Folin, Bateaux et Navires (...), Paris, J.-B. Baillière et fils, 1892

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

D. Bertha Ortigão na Cova da Piedade em 1886

Sabemos que D. Bertha Ortigão passara parte do outono de 1886 na Cova da Piedade em companhia de seu pai, Ramalho Ortigão.

D. Bertha Ortigão por Columbano, 7.ª Exp. do Grupo do Leão, 1887.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Como referido, nas Cartas Portuguezas, pelo ilustre escritor, teria a familia nessas férias visitado amigos e descoberto lugares. Ramalho anotara as recentes novidades e, ao mesmo tempo, relembrara as memórias do tempo de seu pai a propósito da ainda bucólica e pitoresca Cova da Piedade.

D. Bertha, durante estas visitas e passeios,  registava em algumas "pochades" as imagens que, supomos, mais tarde apuraria em telas pintadas a óleo, ou talvez as aprimorasse mesmo "sur place".

Paisagem com casa, Bertha Ortigão.
Cat. Palácio do Correio Velho, 17 de dezembro de 2008.
Imagem: Arcadja

Não conhecemos estes quadros, pois no catálogo da mostra em que foram apresentados a público não consta a imagem de algum deles.

No entanto, com a esperança de que algum dia nos venham a ser revelados, aqui ficam as referências que dispomos tal como descritas no catálogo da 6.ª exposição d'arte moderna, realizada em 1887, pelo Grupo do Leão que, sem compromisso, complementamos com fotografias de nossa escolha, embora um pouco mais tardias.

ORTIGÃO (D. B.) C. dos Caetanos, n.° 30.

68 — Valle Mourellos no outomno.

Pinheiro dos Frades, Cova da Piedade, ed. desc.
Imagem: A árvore do centenário

69 — O Lavadouro da quinta do Brejo.

Cova da Piedade, zona rural, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

70 — Esquina da estrada do Pombal.

Chafariz do Pombal, Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

71 — Taruca, Carocho e Farrusco.
72 — Rosas [da Quinta do Pombal de Paul Henri Plantier?] .
73 — Rosas.
74 — Arenques e vinho branco.
75 — Os moinhos do Pragal.

Almada, Pragal, Vista Parcial, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

76 — Mademoiselle.
77 — Prato decoratico.
...

Ramalho Ortigão (1836 - 1915).
Imagem: Wikipédia

Ortigão, que escrevia sobre quase tudo, e que por este tempo era critico de arte já feito, espetava as suas "Farpas" por aqui e ali; não consta que alguma apreciação tenha feito aos quadros de D. Bertha. O que aumenta a nossa expectativa quanto aos mesmos.


Leitura relacionada: 
Sandra Leandro, Teoria e Crítica de Arte em Portugal no final do século XIX

Artigos Relacionados:
António Ramalho na praia do Alfeite em 1882
Passagem pelo grupo do Leão

Referências internas:
Ramalho Ortigão, verão de 1886
Os dias 23 e 24 de julho de 1833 (parte I)
Os dias 23 e 24 de julho de 1833 (parte II)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

António Ramalho na praia do Alfeite em 1882

D'entre os quadros expostos pelo sr. Antonio Ramalho, um rapaz que começa, com uma bella arrogancia sustentada por um temperamento robusto d'artista, o intitulado "Praia do Alfeite" (n.° 31) é um dos mais notaveis.

Praia do Alfeite, António Ramalho (Ramalho Junior), 1882.
Imagem: YouTube

Ha n'elle uma riqueza enorme de tons amarellos, largamente espalhados por toda a parte, — nos altos saibros que se levantam pesadamente á esquerda, no areial immenso que vem descendo até ao rio, e ainda em mais saibros que se alastram, lá ao fundo, reflectindo-se fortemente nas aguas quietas.

Praia do Alfeite (detalhe), António Ramalho (Ramalho Junior), 1882.
Imagem: YouTube

Até, uma pobre mulher que está toda curvada para o chão no primeiro plano, sobre a areia, tem uma saia amarella! Entretanto, todos aquelles tons embaraçosos foram achados com uma felicidade rara, excepto o do grande areial, que é alvejante de mais frio.

Praia do Alfeite (detalhe), António Ramalho (Ramalho Junior), 1882.
Imagem: YouTube

As figuras elegantes das banhistas que passeiam na praia, umas de toilettes simples mas vistosas, e com sombrinhas listradas, outras de lucto, funereas, são d'um desenho primoroso ; e o rapazito que sentado na areia n'ella enterra as mãos, entretido e deliciado, é realmente uma nota curiosa diurna observação feliz.

Praia do Alfeite (detalhe), António Ramalho (Ramalho Junior), 1882.
Imagem: YouTube

As aguas, d'um socego somnolento, são soberbamente tocadas, bordadas d'espumas claras e manchadas d'esverdeamentos fluctuantes d'algas. E todo o quadro, com o monte verdejante que, salpicado de casarias brancas, vae subindo, ao fundo, até ao azul sereno da atmosphera inundada de sol, é d'uma perspectiva excellente, e d'um effeito geral esplendido. (1)


(1) O Occidente, n.° 115, 1 de Março de 1882

Artigo relacionado:
Praia do Alfeite e Lavadeiras na Romeira