segunda-feira, 29 de agosto de 2016

António Ramalho na praia do Alfeite em 1882

D'entre os quadros expostos pelo sr. Antonio Ramalho, um rapaz que começa, com uma bella arrogancia sustentada por um temperamento robusto d'artista, o intitulado "Praia do Alfeite" (n.° 31) é um dos mais notaveis.

Praia do Alfeite, António Ramalho (Ramalho Junior), 1882.
Imagem: YouTube

Ha n'elle uma riqueza enorme de tons amarellos, largamente espalhados por toda a parte, — nos altos saibros que se levantam pesadamente á esquerda, no areial immenso que vem descendo até ao rio, e ainda em mais saibros que se alastram, lá ao fundo, reflectindo-se fortemente nas aguas quietas.

Praia do Alfeite (detalhe), António Ramalho (Ramalho Junior), 1882.
Imagem: YouTube

Até, uma pobre mulher que está toda curvada para o chão no primeiro plano, sobre a areia, tem uma saia amarella! Entretanto, todos aquelles tons embaraçosos foram achados com uma felicidade rara, excepto o do grande areial, que é alvejante de mais frio.

Praia do Alfeite (detalhe), António Ramalho (Ramalho Junior), 1882.
Imagem: YouTube

As figuras elegantes das banhistas que passeiam na praia, umas de toilettes simples mas vistosas, e com sombrinhas listradas, outras de lucto, funereas, são d'um desenho primoroso ; e o rapazito que sentado na areia n'ella enterra as mãos, entretido e deliciado, é realmente uma nota curiosa diurna observação feliz.

Praia do Alfeite (detalhe), António Ramalho (Ramalho Junior), 1882.
Imagem: YouTube

As aguas, d'um socego somnolento, são soberbamente tocadas, bordadas d'espumas claras e manchadas d'esverdeamentos fluctuantes d'algas. E todo o quadro, com o monte verdejante que, salpicado de casarias brancas, vae subindo, ao fundo, até ao azul sereno da atmosphera inundada de sol, é d'uma perspectiva excellente, e d'um effeito geral esplendido. (1)


(1) O Occidente, n.° 115, 1 de Março de 1882

Artigo relacionado:
Praia do Alfeite e Lavadeiras na Romeira

sábado, 27 de agosto de 2016

Memórias simples

Ha no destricto desta Freguesia dous pórtos de mar, hum he о da Fonte da Pipa, com seu Forte para a banda do Poente, com huma praya como a deu a natureza sem artificio algum, frequentado de muitas embarcações, especialmente lanchas, que a ella vem fazer aguadas, e pode admittir até dezoito désta casta de embarcações.

Cacilhas, Praia da Fonte da Pipa e Olho-de-Boi, João Vaz.
Imagem: Casario do Ginjal

O outro porto he o do Cubal, com huma praya mais espaçosa, que a do primeiro, assim no comprimento, como na largura, tambem sem artificio, frequentado de varias embarcações, como são; bateiras, e fragatas, e as que o frequentão todos os dias fao dezasseis, e tem capacidade para admittir até cincoenta embarcações, como barcos de Cassilhas, que em muitas occasioens do anno vem amarrar nella, pela causa de ser abrigado das tormentas dos Nordestes, e Lestes, que por aqui correm com grande violencia. (1)

Vista de Cacilhas e do Tejo, Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Além de subsistirem traços “do cais e instalações [...] com características identificáveis de final do séc. XVII e XVIII [...],” sofrendo, no entanto, "sucessivos acrescentos e alterações, particularmente após meados de oitocentos," também é verdade que no século XVIII se construíram de raiz "armazéns e cais de alvenaria. A impossibilidade de expansão para a arriba obriga à extensão do cais pela margem à medida das necessidades".

Em 1813, "parte significativa destes armazéns eram propriedade da família Paliarte [...]." Dedicava-se, como de resto a maioria dos comerciantes de vinho ali estabelecidos, à actividade exportadora. (2)

Cacilhas Ginjal Grémio Vista aérea 01 c 1960
Imagem: OBSERVADOR

Segundo os poucos testemunhos disponíveis, a actividade comercial exercida pela Sociedade Theotónio Pereira no século XIX e, ainda, na primeira metade do século XX, tinha por base uma série de produtos agrícolas já transformados, de que se destacavam, entre outros, os vinhos, as aguardentes e o azeite.

A firma que, tanto quanto se sabe, nas suas várias fases em momento algum se dedicou à produção ou sequer à transformação dos produtos que transaccionava, pelo menos em grande escala, tinha a sua sede em Lisboa, sendo possível, ou bastante provável, que até à aquisição dos armazéns localizados no Cais do Ginjal — não sendo de descartar a possibilidade de aqui ter funcionado sempre a actividade armazenista —, toda a mercadoria ficasse acondicionada em depósitos situados na zona ribeirinha de Lisboa ou nas imediações desta.

Panorama de Cacilhas (Ginjal, Fonte da Pipa, Olho de Boi, Quinta da Arealva), 1967.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A de qualquer modo precoce localização, na vida da empresa, dos seus armazéns no Cais Ginjal, encontra-se indirectamente documentada por se saber que quando em Agosto de 1871 foram adquiridos por Theotónio Pereira vários prédios no dito cais, dos números 12 ao 22, havia pelo menos um deles que confrontava com a propriedade da Viúva Theotónio Pereira & Filhos [...]

[...] um prédio na Rua Direita em Almada; um prédio rústico no Ginjal; um outro, também no Ginjal, descrito como rústico e urbano (composto de vinhas – parreiras – árvores de fruto, horta, com duas nascentes de água, casa para caseiro, telheiro e forno); sete prédios urbanos no Ginjal, quase todos eles armazéns com um ou dois pisos; um "domínio" principal de uma "praia denominada do baixo mar, no sítio do Ginjal" de que era "senhoria" a Câmara Municipal de Almada; um segundo "domínio" principal de "uns armazéns, casa e pátio no Ginjal" de que era "senhoria directa" a mesma Câmara Municipal [...] 

Cais do Ginjal, Óleo, Alfredo Keil.
Imagem: Casario do Ginjal



Das vinhas do citado prédio rústico e urbano, "uma quinta encantadora, encostada à rocha de Almada", com o seu "grande parreiral de belíssimas uvas", seguia este seu fruto "em caixas para o estrangeiro" [...]

Foi no Ginjal que nasceu de madrugada Virgínia Theotónio Pereira, a mais nova dos cinco irmãos. Na altura, e como sucedia não poucas vezes, seu pai encontrava-se num pequeno bote a pescar "ao candeio acompanhado de dois pescadores vizinhos". No fim dessa madrugada, levou para casa, entre outro pescado, um "possante congro de 15 quilos." Regressou entusiasmado pela pescaria mas "mal passou os umbrais ouviu um cué-cué de bebé nascido" [...]

Almada, Ginjal, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 21, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Era naquela mesma casa "de fora" do Ginjal que José Correia [avô do escritor Romeu Correia], o encarregado das adegas e dos armazéns de vinhos, marcava os "pas de quatre e as quadrilhas". Juntava-se-lhes "sempre que possível o pessoal menor, depois de se assear", para dar o "seu pé de dança, que acabava sempre num galope à roda mesa da sala de jantar". (3)


(1) P.e Luís Cardoso, Diccionario geografico, ou noticia historica de todas as cidades..., Lisboa, na Regia Officina Sylviana e da Academia Real, 1747, 2 vol.
(2) Martinez, ... ser mestre do vapor de Cacilhas, 2005
(citações de Maria Ângela Correia Luzia, A memória, a cidade e o rio, Lisboa, 1996)
(3) Martinez, idem

Leitura relacionada:
Cais do Ginjal. Da fortuna à decadência

Artigo relacionado:
O Ginjal não é para raparigas solteiras

Tema:
Ginjal

sábado, 20 de agosto de 2016

Domingos Sequeira, Cartuxa de Laveiras, Real Quinta, Trafaria e Cabo Espichel

"Seria hum estimolo muito agradavel a Sua Magestade, o ver em toda a estenção a vista da Cidade de Lisboa athe a barra, e de toda a que ofrece a Costa desde Cacilhas athe ao riba Tejo" [...] (1)

Estudo para o Panorama de Lisboa, Domingos Sequeira. Em primeiro plano vê-se a ponte sobre a ribeira de Barcarena (dos Ossos) e a igreja da Cartuxa de Laveiras, seguidos da Quinta Real de Caxias. Em segundo plano, uma grande quantidade de navios e barcos sobem o Tejo sobre o cenário da Trafaria e do Cachopo sul ou Alpeidão. Ao fundo, na linha de horizonte, distingue-se o Cabo Espichel.
Imagem: Hemeroteca Digital

Por motivos ainda hoje algo obscuros, Sequeira ingressa na Cartuxa de Laveiras (Caxias) [1798-1801]. O seu recolhimento caracteriza-se por uma assinalável actividade artística, pintando uma série de cinco telas de grande dimensão com passos da vida de S. Bruno (fundador e patrono dos Cartuxos) e de outros santos eremitas (Santo Onofre, S. Paulo e Santo Antão). O conjunto encontra-se disperso por três museus (MNAA, Museu Nacional de Soares dos Reis e Museu de Évora). (2)

Planta da Real Quinta de Caxias, J. A. de Abreu, 1844.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O insigne pintor Sequeira foi encarregado, não sabemos, ao certo, em que data, nem para que fim , da execução de uma vista panorâmica da cidade de Lisboa. Este facto é comprovado por diversos autores e por alguns documentos inéditos que dizem respeito a este trabalho. A mais antiga referência encontra-se na "Lista de alguns artistas portugueses", por D. Fr. Francisco de S. Luís, Lisboa, 1839.

Vista do Tejo e da Trafaria, The river Tagus at Trafaria, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

Nela se lê: "Vi em casa de Sequeira, no ano de 1821, o Panorama de Lisboa, em que andava trabalhando".

Posteriormente, em 1843, José Maria da Silva Leal na biografia de Domingos António Sequeira. publicada no jornal de Bellas-Artes, aludia a este trabalho artístico, de que fôra, segundo êle, encarregado em 1821 e l822, nos seguintes termos: "... o panorama de Lisboa, obra já muito adiantada, e cujos desenhos se conservam no archivo das Obras-publicas". 

O nosso saudoso amigo Dr. Xavier da Costa, no seu belo livro A morte de Camões, quadro do pintor Domingos António de Sequeira. Lisboa, 1922, transcreveu as duas mencionadas passagens, sem lhes acrescentar quaisquer outros elementos novos. 

Vista da Trafaria — Saída da barca Martinho de Mello, João Pedroso, gravura
Imagem: Archivo Pittoresco, vol. X, 1867

Com a ajuda de diversos documentos que encontramos no Arquivo Hlstórico Militar podemos acrescentar alguna coisa mais sobre este assunto. Logo, pelo primeiro documento que adiante [e no topo da página], reproduzimos, se conclui que, já em 16 de Setembro de 1818, Sequeira se propunha, auxiliado pelo gravador Benjamim Comte, executar a vista panorâmica de Lisboa até à barra e de toda a costa desde Cacilhas até ao Riba-Tejo.

"[...] tomei a deliberação de comvocar o Abridor Bejami Conte. empregado no Real servisso, para me ajudar ad.a empreza, e escolhendo o luçal da Vila de Almada para dali fiqçar os pontos que ofereção a melhor optica: sendo-me precizo para este fim hu.a Barraca de Campanha, de Coronel, por ser mais reparada, e algum soldado tanto para a conduzir ao d.° sitio de Almada, como para a armar nos pontos q.e convier, e guardala, bem como hua incinuação do Governo p.a o Juiz de Fora de Almada me prestar algum socorro sendo-me nescessario para o dito fim" [...]

Domingos António Sequeira (1768-1837), auto-retrato.
Imagem: Educación Holística

Na exposição sequeirense,  realizada no Museu Nacional de Arte Antiga, em 1939, figurou um album de desenhos de Sequeira, onde há dois relativos a este panorama de Lisboa. Por especial deferência do seu ilustre director o sr. Dr. João Couto, que, amávelmente, nos forneceu a respectiva fotografia, podemos. enriquecer este artiguelho com a reprodução de um daqueles desenhos.

Não é fácil determinar, com exactidão, o que, realmente, nele figura. Na margem esquerda parece avistar-se a Trafaria e o cabo Espichel. 

Na margem direita aparece uma elevação que não conseguimos identificar [n. do e. trata-se da elevação onde está instalado o Forte D. Luís I, ou Forte de Caxias ou Forte-prisão de Caxias].

O querido, amigo Dr. Xavier da Costa, a pág. 27, do seu trabalho Domingos António de Sequeira. Notas biográficas, Lisboa 1939, escreveu: Também D. Frei Francisco de S. Luiz viu em casa de Sequeira, no ano de 1821, o Panorama de Lisboa. em que andava trabalhando. 

Alegoria às virtudes do Príncipe Regente D. João (detalhe), Domingos Sequeira, 1810.
Imagem: Google Cultural Institute

Dizem que era obra muito adiantada e que os esboços se conservavam, depois, no Ministério das Obras Públicas. No Museu das Janelas Verdes, existem vários desenhos, preparatórios para o referido trabalho, sabendo-se que um grande Panorama da cidade, da autoria do pintor, desapareceu no violento incêndio que, em 1863 consumiu o edificio dos Paços do Concelho da nossa capital e a parte primacial do seu conteudo.

Alegoria às virtudes do Príncipe Regente D. João (detalhe), Domingos Sequeira, 1810.
Imagem: Google Cultural Institute

Como o arquivo do Ministério das Obras Públicas foi, também, destruído por outro incêndio que devorou a instalação das encornendas postais no Terreiro do Paço, em 1919. Perderam-se lamentavelmente, não só os desenhos de Sequeira para o panorama da cidade de Lisboa, que ali se encontravam, em 1843, segundo informou o jomalista Silva Leal, como o mencionado "grande panorama". (3)

(1) Contar a vida de Sequeira através das cartas
(2) Contar a vida de Sequeira através das cartas
(3) Henrique de Campos Ferreira Lima, Uma vista panorâmica de Lisboa da autoria do pintor Domingos António de Sequeira, Lisboa, revista Municipal, 10, 1941

Leitura adicional:
O desenho em viagem: album, caderno ou diário gráfico, o album de Domingos António Sequeira
O desenho em viagem: album, caderno ou diário gráfico, o album de Domingos António Sequeira (anexos)
A obra gráfica de Domingos António de Sequeira no contexto da produção europeia do seu tempo

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Alma minha gentil, que te partiste

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no céo eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Rainha D. Estefânia, Karl Ferdinand Sohn, 1860.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

Se lá no assento ethereo, onde subiste,
Memoria desta vida se consente,
Não te esqueças de aquelle amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.

Paço Real do Alfeite, Aguarela, Enrique Casanova
Imagem: Cabral Moncada Leilões

E se vires que póde merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remedio, de perder-te;

D. Pedro V, William Corden sobre original de Winterhalter.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

Roga a Deos que teus annos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou. (1)


(1) Obras Completas de Luiz de Camões... Tomo I, Parnaso..., Vol. 1, Sonetos, Porto, Imprensa Portugueza Editora, 1874

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Pelas praias do Caramujo

A íntima amisade, que contrahi com a Illustre Pessoa, que aqui serve de Heróe; o passeio, a musica, o divertimento de colher pelas praias do Caramujo, termo de Almada, differentes qualidades de mariscos, e finalmente a pesca nunca interrompida, fizerâo em mim tal impressão, que me determinei a celebrar este ultima diverlimento , a que sempre fui propenso; e porque era, e he aquelle, que alli mais cultivão as Illustres Famílias , que a éste sitio concorrem no tempo dos banhos. 

APDG, Sketches of portuguese life, manners, costume and character, Banhos no Tejo, 1826.
Imagem: Internet Archive

No dia 10 de Setembro de 1826, quando eu contava 27 annos de idade, estando todos, como costumávamos, applicados ao nosso divertido exercício, passeando no largo com grande prazer, appareceo de repente Belmiro, debaixo de cujo nome se intitula o Heróe da acção, acompanhado de outro amigo nosso, trazendo por huma corda huma masseira velha, ou gamella de amassar pão, muito rota por todos os lados. 

O cais do Caramujo, década de 1980.
Imagem: Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, Freguesia da Cova da Piedade

Todos perguntarão, porque trazia tal cousa; e elle respondeo, que era para nella hirmos pescar. Todos estimámos, principalmente eu, tal descoberta de vaso, para duplicarmos nosso regosijo nesta tarde. 

Logo, convocando elle alguns amigos, comigo começou a concertalla do modo, que melhor foi possível; nella metemos as redes e vogámos para o mar, elle, e eu sómente, porque ninguem mais se atreveu a acompanhar-nos.

Muitas pessoas, principalmente huma Senhora, sua filha, e mais familia nos dissuadíão de tentar o rio naquelle vaso pequeno e velho; mas desprezados estes avisos, e confiados em saber bem nadar, comettemos nossa viagem.

Caramujo, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: ZONA Magazine

Estando porem já muito distantes de terra, repentinamente sobreveio tão horrivel tempestade, que á vista de todos fez voltar o barquinho comnosco, que, privados de ver a terra por causa do aguaceiro, com relâmpagos, raios, trovões, pedra, etc. nos custou tomar a praia apesar das nossas forças em nadar.

Em fim chegámos á praia, e mandámos soltar hum bote, que estava prezo a hum cáes de pedra, para trazer a canoa, e as redes, que ficárão no largo, as, quaes trouxerão peixe, de que se fez huma merenda esplendida, como nunca tivemos, o que bem se pôde inferir pelos successos, que lhe antecederão, que posto sejão debuxados com tosco pincel, forão brilhantes [...]

Praia do Caramujo, Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite (detalhe), 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Do Caramujo expõe-se o sítio ameno;
E como delle gosâo pelo Estio
Innocentes, maritimos prazeres
Diversas personagens d'outras terras.
No designio Belmiro entra da pesca
C'os illustres vizinhos, que consentem,
E do dvertimento não desmentem [...]

Caramujo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 15, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Do nosso antigo Tejo, ha na aurea margem,
Hum lugar mui ameno, delicioso,
Caramujo de séculos remotos
Pelos seus habitantes nomeado:
Dous altos montes sobem a seus lados,
Que parecem tocar do Ceo as nuvens.
Hum agradável prado mui risonho,
Onde assiste a formosa Primavera,
Torna seu local bello, e aprazível [...]

Viata da Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

"Tudo o que Vénus diz, verdade he pura,
"Formosa Filha tua, grande Jove;
"Lá do Tejo nas margens, nas raízes
"Dos montes, que de base a Almada servem
"O Caramujo existe socegado.
"He maritimo porto, alli altares,
"E templos dedicados mil eu lenho,
"Onde o licôr divino nunca falta,
"Que com festividades me consagrão;
"Alli á Pesca entrega-se Belmiro [...]

Enseada da Cova da Piedade, c. 1900.
Em 1.° plano o pontão e a entrada da quinta do Alfeite e, em 2.°, o cais da Rankin & Sons.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Belmiro se prepara com Phylinto;
Fileno vai também lançar as redes:
Já he visto o batel frágil nas ondas.
Difficutdades muitas se presentão.
Que pelos argonautas são vencidas.
A rede se prepara, que na barca
Já recolhida fôra, e só lhe falta
Remar bem para o largo com grão força [...]

Cais do Caramujo, pontão de madeira, década de 1970.
Imagem: Fernando Cruz

"Ó Deos do mar profundo, tu me escula,
"Mais que disse, dizer nâo pôde Vénus;
"Do Caramujo sou Patrono eterno;
"Eu requeiro o que implora a bella Deosa:
"Juno he prejura; Belmiro innocente;
"Juramento a verdade não precisa. [...] (1)


(1) Francisco António Martins Bastos, A pesca, Lisboa, Impressão Regia, 1831

Leitura relacionada:
Francisco António Martins Bastos na Biblioteca Nacional de Portugal 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

O grupo do Dragão Vermelho

Se observarmos o panorama cultural almadense, de meados do séc. XX, partindo das transformações urbanísticas, ao invés dos orgãos institucionais e seus equipamentos, podemos detectar acções paralelas.

Almada, Jardim Sá Linhares, ed. Postalfoto, 11, década de 1950.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Figuram, nessa perspectiva, os cafés e as personagens locais, resultando da sua articulação um novo fragmento da iniciativa cultural: os eventos realizados no café Dragão Vermelho, entre 1959 a 1961.

Almada, Praça da Renovação, ed. J. Lemos, s/n, década de 1950.
Imagem: almaDalmada

Postos em cena por um grupo de artistas locais, com vista a introdução da arte moderna em Almada, esses eventos são aqui reconstruidos, através dos registos documentais da epoca e dos relatos de Alfredo Canana, Francisco Bronze e Louro Artur - três dos elementos que compõem o "grupo do Dragão Vermelho" [...]

Francisco Bronze.
Imagem: IMARGEM

No contexto local, e na segunda metade do séc. XX, com as implementações do Plano Parcial de Urbanização de Almada (1947), que surgem os primeiros indicadores do urbanismo moderno.

Plano Parcial de Urbanização de Almada (PPUA), Implantação do Cento Cívico, 1947.
Imagem: Ver Almada crescer: 10 anos do Museu da Cidade (catálogo)

Uma área emergente, que motiva um fluxo populacional, marca a fronteira com uma morfologia rural, descaracterizando a paisagem e destruindo parte das rotinas que se ligam ao lugar.

Romeu Correia e o Cais do Ginjal, Louro Artur.
Imagem: Programa Comemorações 25 de abril 2014

Também em consequência do processo de modernização, o centro da vila sofre um deslocamento da zona antiga para a zona moderna e o núcleo encontra-se agora na Praça da Renovação (actual Praça do M.F.A) [...]

Praça da Renovação, década de 1960.
Imagem: Delcampe

Inserindo-se numa paisagem que ainda tem muito de rural, marcada pela escassez de infraestruturas sociais, os cafés vão assumir um grande poder agregador; implicando a reformulação dos palcos das práticas quotidianas.

Jorge Norvick Pintura.
Imagem: IMARGEM

Nestes cafés, o convívio faz-se essencialmente entre as pessoas da terra e entre os vários tipos sociais encontram-se os jovens artistas que vão formar a grupo do Dragão Vermelho: Francisco Bronze, José Bronze, Jorge Norvick, José Zagallo, Louro Artur, Luiz Suarez, Peniche Galveias, e os colaboradores Alfredo Canana, Jaime Feio, P.e Antonio Leitão, e Sérgio Só [...] (1)


(1) Jani Maurício, O grupo do Dragão Vermelho, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2009

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Os aviadores suíços

Os aviadores suíços Kaeser e Lüscher sobrevoaram ontem a praia da Costa da Caparica e conseguiram fazer três aterragens.

Costa da Caparica, os aviadores suíços do Jung Schweizerland, Oskar Käser et Kurt Lüscher, 12 de agosto 1929.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Eles vão renovar esta tarde as mesmas tentativas, descolando desta vez com a carga máxima.

Costa da Caparica, o avião Jung Schweizerland na praia em 12 de agosto 1929.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

A data de partida para a travessia do Atlântico não está ainda fixada, mas terá lugar provavelmente daqui até ao fim de semana da praia da Costa da Caparica, mais extensa que a de Alverca. (1)

Costa da Caparica, diversos aviões na praia, 1929.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

Preparado para voar, o F.190 n°21 é registado na Suíça. Inteiramente pintado em cor de aluminio, recebe a matrícula CH-245 e é baptizado "Jung Schweizerland".

Segunda-feira 5 de agosto, Käser et Lüscher acompanhados por Tschopp, descolam de Dübendorf para Le Bourget. Após ter efectuado uma afinação do motor e acertado a bússula, a equipagem efectua ensaios de consumo e carga. Com os seus 2400 litros de gasolina, fundamentando os seus cálculos no voo de Bailly et Reginensi, Käser estima a autonomia do avião em 50 horas para uma média horária de 155 km/h. Isto deverá então permitir-lhe a duração do voo de Lisboa a Halifax que ele avalia em 40h. No entanto, para os especialistas, os homens são demasiado optimistas, subestimando fortemente os ventos contrários, que terão que afrontar perto das costas americanas.

Carta do Atlântico norte, Farman 190 CH-245, Lisboa - Halifax, 19 de agosto de 1929.
Imagem: AVM

O avião transporta igualmente equipamento de sobrevivência em caso de amaragem: entre outros uma canoa pneumática, máscaras com reservatórios de oxigénio, bombas de fumo, foguetes, canas de pesca, chocolate, água, um aparelho para destilar água e... champagne. Os aviadores vestirão sobre a indumentária normal fatos de macaco emborrachados. Por outro lado, eles não levam consigo equipamento de TSF.

Dia 8 de agosto às 14h20, o CH-245 levanta de Le Bourget para Lisboa apesar da meteorologia pouco favorável. Tomando sem prevenir um percurso de passeio, Käser visita a sua familia em férias, pousando em  La Baule Escoublac às 17h20. No dia seguinte às 10h00, reparte para pousar às 12h13 em Cazaux, que deixam dia 10 às 9h40 para Lisboa onde aterram às 15h40 por engano no terreno militar da Amadora, antes de aterrarem no terreno internacional de Alverca.

Os aviadores efectuam primeiramente uma revisão completa do aparelho com a ajuda dos mecânicos de Alverca. Este terreno, demasiado curto, não pode no entanto convir à sua descolagem com a carga plena. 

Dia 12 de agosto, Käser efectua por três vezes com sucesso tentativas de descolagem na praia da Costa da Caparica.

Costa da Caparica, o avião Jung Schweizerland na praia em 12 de agosto 1929.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

No entanto, no dia seguinte, o major Ribeiro da Fonseca indica-lhes um terreno mais propício em Juncal do Sul não longe de Alverca, numa vasta zona agrícola constituída por zonas alagadiças drenadas, as lezírias, situada na margem esquerda do Tejo, frente a Vila Franca de Xira (hoje Reserva Natural do Estuário do Tejo).

Após terem definitivamente optado por este terreno, os aviadores não esperam mais do que as condições meteorológicas favoraveis para efectuar a sua tentativa. Dia 18 de agosto, decidem partir no dia seguinte.


Ermida de Nossa Senhora de Alcamé na lezíria ribatejana.
Imagem: Concept Board

Dia 19 de agosto à 1h00 da manhã, enquanto Tschopp passou a noite a guardar o avião, Käser et Lüscher preparam as provisões: 6 termos de café com leite, 15 sanduiches, tabletes de chocolate e duas garrafas de Porto Velho. Às 3h15, deixam o hotel "Avenida Palace".

O seu carro é seguido por outros transportando António de Faria, o director da Radio Lisboa, algumas admiradoras suíças e portuguesas, jornalistas, fotógrafos e amadores da aviação. Chegados a Vila Franca, os automóveis e seus passageiros atravessam o Tejo por barco.


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Diário de Lisboa, 19 de agosto de 1929


Na obscuridade, algumas viaturas perdem-se. Às 6h20, o avião está rodeado de automóveis e de um grupo de campinos, guardas da criação de touros, a cavalo, com os seus coletes vermelhos e as suas lanças.

Entre as personalidades presentes, o major Luis da Cunha e Almeida, director do Parque de Material Aeronáutico, Antonio de Sousa, administrador da Companhia das Lezírias, journalistas, um operador da Paramount, representantes das agências Associated Press e United Press e João Santos Moreira, representante da sociedade Atlantic que fornece a gasolina. Os soldados da base enchem os pneus enquanto Tschopp, ajudado por Käser e Lüscher, empilha no posto de pilotagem 7 bidons de 20 litros de gasolina e 2 bidons de óleo.

Luis da Cunha informa os aviadores da situação meteorológica: bom tempo até aos Açores, depois nevoeiro, principalmente sobre Terra Nova. Notícias que não mudam nada para Käser que prevê tomar a direcção da Nova Escócia após a passagem dos Açores.

Os aviadores vestem então os seus fatos de macaco estanques de cor verde. Em modo de brincadeira, Tschopp oferece a Käser uma rolha de cortiça para os ajudar a flutuar, em caso de… utilizam o mesmos sextantes e corrector de rota que Gago Coutinho e Sacadura Cabral quando do seu voo transatlântico. Ribeiro da Fonseca e o engenheiro Salgado ensinaram a sua utilização a Lüscher.

Às 6h45, o Junkers "Monteiro Torres" pousa a algumas dezenas de metros do Farman. A bordo encontram-se o tenente-coronel Cifka Duarte, o major Ribeiro da Fonseca, o tenente Cardoso e o mecânico Oliveira que vieram desejar boa viagem aos aviadores suíços.

Junkers W34-L Monteiro Torres, documentário A Largada das Águias, 1935.
Imagem: Cinemateca Portuguesa

Às 7h12, o motor é posto em marcha. Às 7h15, está em pleno regime. às 7h17, Käser, satisfeito com o funcionamento do motor, chama Tschopp e abraça-o. Às 7h18, o Farman, segundo o Diario de Lisboa não levava mais do que 2100 litros de gasolina (o que poderia querer dizer que os reservatórios das asas não foram utilizados?) e 80 litros de óleo, o que lhe permitia 42 h de voo, começa a rolar e descola às 7h19 depois de uma corrida de 1200 m.

Oskar Käser e Kurt Lüscher, descolam para Halifax num campo das lezírias, 19 de agosto de 1929.
Imagem: Crezan Aviation

O Farman CH-245 é observado quando sobrevoava os Açores (Terceira) cerca das 18H00, tendo percorrido 1600 km aproximadamente em 10h40 de voo segundo um horário próximo das suas previsões. Mas falta-lhe ainda percorrer para chegar a Halifax os 3000 km mais difíceis com uma meteorologia desfavorável.

Oskar Käser et Kurt Lüscher junto ao Jung Schweizerland antes da descolagem para Halifax, 19 de agosto de 1929.
Imagem: Aargauer Zeitung

As luzes do Roosevelt Field ficariam acesas toda a noite, mas o punhado de apoiantes entre os quais figura o capitão Lewis A. Lancey, navegador do Bellanca "Pathfinder", esperariam em vão: o CH-245 e a sua equipagem desapareceram algures entre os Açores e Halifax; jamais seriam encontrados. (2)


(1) Le Petit Parisien O suiço Kaeser prepara-se em Lisboa para a sua travessia do Atlântico 14 de agosto de 1929
(2) Crezan Aviation