quinta-feira, 18 de maio de 2017

Fortes, esbeltas e um pouco ariscas

Nunca encontraram, á hora do desembarque, as mulheres dos figos? 

Lisboa.Vendedeira de figos, Joshua Benoliel, 1912.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Veem, ainda fusque fusque, da Outra banda, no primeiro bote de carreira, com os seus grandes cestos. Apparecem no caes de Cacilhas de noite ainda, e vão ellas próprias muitas vezes accordar os barqueiros e avisal-os de que já se avista a manhã.

Lisboa.Vendedeira de figos, Joshua Benoliel, 1912.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

São, em geral, raparigas fortes, esbeltas; um pouco ariscas, como dizem, os saloios, da terra que é secca e solta.

Lisboa.Vendedeira de figos, Joshua Benoliel, 1912.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Debalde os barqueiros se estafam em finezas e lhes juram emquanto remam que depois de acabar a lua são ellas a estrella d'alva: nem lhes dão um sorriso, nem um figo.

Lisboa.Vendedeira de figos, Joshua Benoliel, 1912.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Essa mesma rebeldia os seduz, e ainda mais porfiam em as alcançar, esperando-as sem somno á hora em que ellas voltam da Sobreda, do Monte, de Caparica, de Valmourellos. (1)


(1) JuIio César Machado, Lisboa na rua
cf. Alberto Pimentel, A Estremadura portuguesa, Volume II, Lisboa, Empreza da História de Portugal, 1908, 539 págs.

domingo, 14 de maio de 2017

Cronologia do Convento dos Capuchos (Caparica)

1558 - fundação e construção do convento com invocação a Nossa Senhora da Piedade, integrado na Ordem dos Franciscanos Arrábidos, ordenada por D. Lourenço Pires de Távora (1510-1573), da família nobre dos Távora, 4º senhor da Casa e Morgado da Caparica, nascido em Almada, homem de armas e diplomata ao serviço de Portugal, que passa a ser seu padroeiro; 

Mapa de Portugal, Mosteiro da deceda, Convento dos capuchos Fernando Álvares Seco, 1561
Imagem: Wikimedia Commons (detalhe)

a construção é de linhas simples, com as celas nos sobrados e as restantes dependências na parte inferior, nas traseiras da igreja; construção de uma ermida, na cerca do convento, de invocação ao Apóstolo São Pedro, para as orações particulares dos religiosos; a comunidade religiosa é protegida pelos padroeiros do convento, donos das quintas da região e pelo próprio rei D. Sebastião que concede aos freires o privilégio de se abastecerem de lenha dos seus pinhais de Caparica;

1560 - o papa Pio IV concede ao altar-mor as mesmas indulgências de que usufruíam as igrejas de São Gregório de Roma e de São Sebastião de extra-muros da mesma cidade;

1573 - falecimento do instituidor do convento que, cinco semanas antes da sua morte, se tinha recolhido nele; A lápide da sepultura da capela-mor tem a inscrição "SEPULTURA DE LOURENÇO PIRES DE / TAVORA DO CONSELHO DO ESTADO DEL- / REI D. SEBASTIAO O I DESTE NOME INS- / TITUIDOR E PADROEIRO DESTA CASA. / FALECEU DE IDADE DE 63 ANOS A / 15 DE FEVEREIRO NO ANO DE 1573 / AVENDO CINCO SEMANAS Q. DESCANSAVA / EM SUA CASA DE MUITOS SERVIÇOS Q. FEZ A ESTE REINO NA PAZ E NA GUER- / RA E NA ASIA AFRICA E EUROPA".

Zee Caerte van Portugal Daer inne Begrepen de vermaerde Coopstadt van Lisbone, Lucas Janszoon Waghenaer, 1586.
Imagem: Wildernis

1618 - renovação dos dormitórios;

Pascaarte vande Zeecusten van Portugal tusschen de Barlenges en de C. de S. Vincente geleghen, W. J. Blaeu, 1612.
Imagem: Vlaams Instituut voor de Zee

1630 - obras de ampliação e beneficiação com re-edificação do imóvel, provavelmente incluindo a fachada principal, com acrescento do coro-alto e do nártex com uma serliana e que, para além do símbolo dos Franciscanos e das armas dos Távoras, passa a ter duas janelas laterais e, ao centro, um nicho; revestimento do nártex com azulejos e feitura do púlpito da igreja, da responsabilidade do Provincial Frei Lourenço da Madre Deus;

El Atlas del Rey Planeta (detalhe), Pedro Teixeira, 1634
Imagem: La descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos

1755, 01 novembro - terramoto causa grave destruição do convento, à exceção da frontaria;

Plan du Port de Lisbonne et de ses Costes Voisinnes, Jacques Nicolas Bellin, 1756.
Imagem: O Mundo do Livro

Séc. 18 - é padroeiro do convento José Menezes Távora;

Mappas das provincias de Portugal novamente abertos e estampados em Lisboa, João Silvério Carpinetti, 1769.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

1778 - data inscrita no painel de azulejos do portal de acesso ao jardim sobrelevado da cerca;

1779 - os frades passam a assegurar uma "escola de ler, escrever e contar" onde afluem jovens das aldeias vizinhas;

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813
Imagem: IGeoE

1834 - extinção das Ordens religiosas e sequente declínio do convento e desaparecimento dos azulejos do nártex; residem, então, no convento, apenas 9 frades, passando a tutela para a responsabilidade do Juiz do Povo da Freguesia; supressão do convento devido ao baixo número de frades residentes e a ter sido considerado inútil;

Um frade franciscano e um irmão laico antes da abolição da sua Ordem, c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

1872 - nacionalização dos bens do convento;

Sécs. 19 - 20 - sofre longas vicissitudes que levam à ruína da ermida de São Pedro juntamente com o convento, ficando apenas alguns vestígios, que possibilitam o posterior levantamento das paredes deste, no mesmo local; é ocupado, ao longo dos anos, por pastores e agricultores da região com pastagens nas imediações, tendo passado por várias transmissões;

Caparica, Convento dos Capuchos, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

1925 - desaparecimento dos azulejos da igreja;

A Praia do Sol, Panorama dos Capuchos, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 107, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

1950 - compra de toda a parte rústica e urbana da propriedade do antigo convento dos Capuchos, pela Câmara Municipal de Almada ao então proprietário Virgílio Alves Xavier;

Costa da Caparica, Convento dos capuchos antes da restauração, ed. Passaporte, 30, c. 1950
Imagem: Delcampe, Oliveira

1952 - data das imagens do interior da igreja e da talha dourada do altar, oferecidos pelo Dr. João Couto, então Diretor do Museu Nacional de Arte Antiga;

Caparica,, Convento dos Capuchos, década de 1950.
Imagem: Delcampe

1952, 18 outubro - regresso das ossadas do instituidor e padroeiro do convento e seu sepultamento à entrada da capela-mor;

Costa da Caparica, Almada, Miradouro dos Capuchos e Caparica
Ed. Passaporte, 30

1960 - 1970, décadas - construções nos jardins, época de imagens de santos e outras obras expostas, resultado de ofertas provenientes de monumentos demolidos de Almada e Lisboa, tendo algumas obras sido realizadas por mestre de obras e pedreiros;

Miradouro do Convento dos Capuchos, ed. Passaporte, 57, 1966
Imagem: Delcampe

1982 - data inscrita sobre um dos arcos do miradouro recente, possivelmente assinalando a sua construção;

1984 - elaboração de um convénio entre o Museu Municipal de Almada e o Centro de Arqueologia de Almada; início da fase de estruturação e instalação no convento do Museu Municipal de Almada;

2000, 13 maio - assinatura do auto de consignação que marca o início das obras de restauro, consolidação e ampliação do convento;

Caparica, Convento dos Capuchos,
Painel de azulejos, Nossa Senhora da Boa Viagem.

2000 - início da requalificação do convento pela Câmara Municipal de Almada. (1)


(1) Albertina Belo, SIPA, 2001

Artigos relacionados:
Quinta Távora e Mosteiro da deceda
A Costa romântica de Bulhão Pato

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Nas arribas do mar (faíscas de fogo morto)

Por todo este almaraz ao terreno ondulando, 
Tal como ondula o mar, quando o tempo está brando. 
Nos contrastes de luz, no variado matiz, 
Nenhum lhe dá de rosto em volta do paiz.

The Praҫa do Comércio Lisbon, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

As folhas dos trigaes, vinhedos e pomares, 
Pendendo para o mar á beira dos algares.

Val de Flores, Rosal, a fecunda Sobreda, 
Conservando a azinhaga e a sombria vereda.

As "Villas de Azeitão", o medo de Albufeira, 
A Charneca, formando uma enorme clareira 
Cingida de pinhaes. No gracioso recorte, 
Cintra, no seu perfil, campeando sobre o norte.

A Arrábida domina ufana o Sado e Tejo. 
Não tem outra rival por todo esse Alemtejo.

Vista do Tejo tomada de Belém, Bellisle looking down the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

O Atlântico á barra. O rio, a desaguar, 
Funde na vaga azul a tinta verde-mar.

Seja em que ponto for é relancear a vista; 
Sempre, no vasto quadro, uma nota imprevista.

Pescadores no Tejo, Fishermen at work off the mouth of the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

Rompe um formoso dia. O mar azul e manso. 
Vem as redes á Costa, e com soberbo lanço.

De toda a povoação, e remotos casaes, 
As recovas lá vão a travez dos juncaes.

Vista do Tejo e da Trafaria, The river Tagus at Trafaria, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

E a trepar a ladeira, — a saia coruscante, 
A cestinha á cabeça, o lenço fluctuante, 
— Correm, com seus pregões, á venda, as raparigas, 
Pregoes que têm um tom de jovenis cantigas!

Cae a noite. O farol, as frechas rutilantes, 
Atira pelo oceano e guia os navegantes.

Vista do Tejo e do Forte de S. Lourenço, Bugio Castle, the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

Accendem-se também Bugio e Sam Julião. 
A cidade illumina, e reflecte o clarão 
No Tejo que lá vae, na veia crystallina, 
Levando, a scintillar, o véo da tremulina. (1)


(1)  Bulhão Pato, Faíscas de fogo morto, Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciências, 1908

Artigo homónimo:
Nas arribas do mar (cf. Bulhão Pato, Memórias, Vol. III, Lisboa, 1894)

Artigo relacionado:
John Cleveley Junior e o Tejo, 1775

sábado, 1 de abril de 2017

Laura, a duquesa d'Abrantes

Fazia já calor, e os campos dos arredores ofereciam uma vista encantadora. Alegrava-me plenamente com esta bela natureza, e todos os dias ia passear em "gôndola" pelo Tejo, fosse para ir a Almada, ou para subir a Sacavém, ou, mesmo ainda, para aproveitar a brisa ao fim da tarde e ir em "calèche" até Pedrosa, a uma charmosa quinta que possuía neste lugar a duquesa do Cadaval [...] (1)

Panorâmica da Lisboa ribeirinha antes do Terramoto de 1755,
tomada a partir dos jardins do palácio do Marquês de Abrantes (onde hoje se encontra a embaixada de França).
Imagem: Museu de Lisboa

Pude sair. O meu marido reservou o escaler e fomos pela água a Almada, no outro lado do Tejo.

Estava fraca, estonteada, como que saída de uma longa doença. Este passeio recuperou-me. Entretanto não pude comer mais do que uma laranja em todo o dia e, durante vários dias, foi-me impossível cheirar uma flor.

Vista do Tejo tomada do palácio da embaixada de França, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

Almada, de que falei, é uma grande vila situada sobre a margem do Alemtejo, sobre o lado do sul.

É lá que vários habitantes têm as quintas. As colinas, que as envolvem, sáo retalhadas pelas flores mais belas. A convolvulus tricolor cobre a terra com as suas belas flores [bons-dias, bela-manhã] em rasgos de azul-celeste rivalizando com o belo céu do país.

Boca de Vento, estrada da Fonte da Pipa, junto à altura da Casa da Cerca.
Vista de Lisboa tomada da margem esquerda do Tejo, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

A igreja de Almada merece ser vista, e é um fim de passeio tão mais agradável que revemos sempre com um novo charme Lisboa e os seus ricos arredores.

Era em Almada que se davam no verão as corridas de touros. Há um circo por detrás da praça do Rocio, mas as gentes de Lisboa preferiam ir ver os touros a Almada do que a esse sítio fechado, e eles tinham razão. De resto, o melhor teria sido de não ter ido de todo, porque as corridas de touros em Portugal não são mais do que uma má paródia às de Espanha.

Os touros são boleados. Metem-lhes bolas de marfim ou de osso, grandes como uma maçã, na ponta dos cornos, e desta maneira o homem que os combate corre menos perigo.

Esta medida foi ordenada desde que o filho do conde dos Arcos foi morto por um touro ao combatê-lo. O touro apanhou-o de surpresa, quando o infeliz jovem se retornava para falar ao rei.

A morte do Conde dos Arcos, aguarela de Alfredo Roque Gameiro.
O marquês de Marialva vingando a sua morte do seu filho na ultima corrida real de Salvaterra de Magos.
Imagem: issuu

Acontecem sempre os acidentes apesar disso, e eu fui testemunha de uma infelicidade no primeiro dia que fui a Almada. Um homem apresenta-se para combater o touro. O animal tinha o sentido da sua força, mas sabendo que esta estava neutralizada no uso dos seus cornos, não tenta sómente se servir dela. Fundiu-se sobre o homem, e com o focinho fendeu-lhe o externo. O infeliz grita vomitando goles de sangue e expira antes de ser transportado para fora do circo.

Amo Almada. Amo sobretudo a sua igreja, situada sobre uma altura...

Laure Permon (Junot) (1784-1838), duchesse d'Abrantes.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

É principalmente ao fim da tarde que se deve ir a Almada.

Almada c. 1810, Pierre Eugène Aubert  (assina 'Aubert fils' c. 1815 e 'Aubert père' a partir de 1840), segundo
Lisbon from Fort Almeida [sic],
Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden, Fieldmarshal The Duke of Wellington

Deve-se partir de Lisboa ao pôr-do-sol. Vê-se ainda os cimos das colinas dourados pelos seus ultimos raios. Depois eles enfraquecem. O céu fica mais escuro, o vento arrefece e levanta-se [...] (2)


(1) Alber Savine, Le Portugal il y a cent ans..., Paris, Louis-Michaud, 1912
(2) Idem

Leitura relacionada:
Fonseca Benevides, Francisco, No tempo dos francezes, Lisboa, A Editora, 1908, 319 págs.

Bibliografia relacionada:
Laure Junot (1784-1838), duchesse d'Abrantès...

quarta-feira, 29 de março de 2017

Fazer a barba... em Cacilhas

Janotas que vinham fazer a barba a Cacilhas por um pataco, pagavam o barco e ainda restava dinheiro para o copo de vinho. (1)

Vista norte de Cacilhas. Em primeiro plano ao lado esquerdo, dois marinheiros carregam cestos a partir de uma barcaça, com a inscrição 'JWells Aqua', para o convés de um ferry-boat onde uma mulher e dois homens aguardam. Do lado direito um barco transporta um passageiro abrigado por um dossel e seis remadores. Vista da igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso, do porto e do lugar de Cacilhas. A bandeira inglesa sobre o hospital. Ao fundo, veleiros no rio Tejo.
in British Library    
Imagem: Cabral Moncada Leilões

— Se o Doutor João Bernardo [da Costa Loureiro] fosse a Caçilhas fazer a barba porque lá he mais barato, depois de lá estar em Caçilhas, e ter escapado das delicadas mãos dos barbeiros de Caçilhas, quando tornasse para Lisboa, no meio do rio, alli ao pé das Náos onde estão os Francezes (coitadinhos!) o Arraes da Falua, hum delles que eu conheço mais assomado, chamado Zé nordeste , baldeasse com o Senhor Doutor Joáo Bernardo ao meio do rio, por não lhe querer pagar, depois de V. m. fícar muito bem affogado, e metido no buxo de alguma alforreca, náo se poderia dizer, com verdade que V. m. tinha visto Caçilhas e chegado ao fim da sua acção,  que era fazer a barba em Caçilhas?

The Harbour of Lisbon, segundo Alexandre Jean Noël, 1796.

Sim Senhor, dirá V. m., mas isso nao prova, porque o resto da companha quando chegasse ao Cáes podia dizer, o Doutor Joáo Bernardo, vindo já escanhoado de Cacilhas, que he o que lá foi fazer, foi affogado pelo mestre Arraes Zé nordeste, por lhe não querer pagar [...] (2)


(1) Romeu Correia, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.
(2) José Agostinho de Macedo, O Exame examinado..., Lisboa, Impressão Régia, 1812

segunda-feira, 20 de março de 2017

Fonte da Pipa e sua água

LISBOA , em Lat. Ulissipo [phn, Tejo], de que vém a ser cor. voc. o significar "água bôa" em que nada esta Cidade (a maior das conhecidas na Europa, Capital do Reino de Portugal) que há mais pequena escavação, logo apparece: o t. he Árabe; e porque parte desta água apezar de em muitas partes ser minerál, e sulphúrica, como se vê dos banhos das "alcacerias" pertencentes ao Duque de Cadaval, abunda muito Lisboa, de que tóma o nome; mas porque as águas potáveis afóra o antigo chafariz chamado de Elrei na Ribeira Velha, que córre por nove bicas sem cessar, e que se concertou em o tempo da Regencia, que o Sr. D. João VI. retirado no Brazil, deixara em Portugal, óbra prima de hydraulica, sem que o chafariz parasse de correr, e cuja ruína já era espantoza; abasta a Cidade: foi da providencia do Rei D. João V. encanar do Cazal d'águas livres, que rebenta em grandes olhos a água em Bellas a duas léguas de Lisbôa, "Villa de Pedro Correia", assim chamada em outro tempo, por hum aqueducto, que he huma óbra perfeitamente Romana, que nunca cedêu de sua feitúra pelo terremoto, que abastece de água a Cidade, independente do poço chamado d'água sancta , rúa da Prata, que nunca seccou, e em que se recórre em occazião de sêccas graves, e da água da outra banda, de que se faz águáda para os navíos (chamada a da Fonte da Pipa), porque vinha, em pipas vender se ao Cáes do Sodré antes de feito o sobredicto aqueducto — Águas livres.

Fonte da Pipa, aguarela de Álvaro da Fonseca, c. 1915.
Imagem: Almada na Historia, Boletim de Fontes Documentais, 27-28

— Desgraça he que sendo esta água tão bélla, e potavel esteja imprégnada com outras inferiôres em bondade pela concessão mal entendida de deixar tirar do aqueducto pénnas, e anéis d'água com a obrigação de lhe substituir porção igual, que nunca igualára sua primitiva bondade.

Fonte da Pipa, Álvaro da Fonseca, c. 1915.
Imagem: Hemeroteca Digital

"Quem não vío Lisbôa, não vío couza bôa." adag. (1)


(1) António Maria do Couto, Diccionário da maior parte dos termos homónymos, e equívocos da lingua portugueza..., Lisboa, Typ. António José da Rocha, 1842


Artigo relacionado:
Fonte da Pipa e seu caminho

terça-feira, 14 de março de 2017

Romeu Correia (um percurso...)

1.º Percurso deste roteiro literário:
Avenida Heliodoro Salgado e Rua Capitão Leitão
(da Câmara Velha ao Museu da Música Filarmónica)

Praça Camões, Tribunal e Paços do Concelho — Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Ciclo de visitas organizadas pela APCALMADA-USALMA
a locais que evocam a vida e a obra de Romeu Correia através da sua "voz",
isto é, daquilo que deixou escrito.

Romeu Correia no miradouro Luís de Queirós ou Boca do Vento.
Imagem: Wikipédia

Data: 5.ª Feira, 23 de março de 2017

Concentração às 14H30 nos Paços do Concelho, no LARGO LUÍS DE CAMÕES,
no início da R. Capitão Leitão, junto à Incrível Almadense.

Em cada um dos locais que vão ser referidos vão evocar-se factos da vida do escritor Romeu Correia, acontecimentos e vultos almadenses dignos de serem lembrados. Será sempre Romeu Correia a "falar" connosco, através da leitura de pequenos excertos da sua escrita em prefácios, artigos da sua vastíssima colaboração jornalística, contos, romances e obras sobre a história local.

Sábado sem Sol, 1947, ilustração Fernando Camarinha.
Imagem: Tertúlia Bibliófila

Programa:

— No antigo LARGO DA CÂMARA evocaremos com as palavras de Romeu Correia alguns dos momentos inesquecíveis que aí se viveram [Trapo Azul (1948), Chico Grilo in Sábado sem Sol (1947)].

O carvoeiro, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

— Na AVENIDA HELIODORO SALGADO, sempre acompanhados com as palavras do escritor:

Avenida Heliodoro Salgado — Almada, ed. desc.,
(ex avenida Gomes Netto no tempo da monarquia).
Imagem: Delcampe

Veremos o n.º 13, que foi o local da casa dos tios José Carlos de Melo e Julieta Correia, onde Romeu Correia viveu dos 21 aos 33 anos (de 1938 a 1950);

Sede da Incrível Almadense e habitação de José Carlos de Melo de 1938 a 1959.
Imagem: Alexandre Castanheira, Romeu Correia, Memória Viva de Almada...

faremos a evocação do namoro e casamento dos tios, conheceremos um resumo biográfico sobre José Carlos de Melo e destacaremos que foi neste local que iniciou a sua escrita teatral, jornalística, de contista e de romancista [Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada (1978), Prefácio de Tonecas, a Tragédia que enlutou Almada, de Vítor Aparício, Sempre Menino in Sábado sem Sol (1947), Dois Mil Contos in Um Passo em Frente (1976), O Tritão (1982)];

Carta Postal (detalhe), ed. Câmara Municipal de Almada, c. 1940.
Imagem: Delcampe

Veremos o atual n.º4 , que foi o local da casa do dr. Alberto Araújo — evocação da amizade recíproca e resumo biográfico deste insigne almadense [Jornal de Almada (14 de dezembro de 1974), Trapo Azul (1948), Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada (1978)].

Contamos com a presença e testemunho da filha do escritor, Julieta Correia Branco, que nasceu e viveu na casa dos tios.

— Na RUA CAPITÃO LEITÃO:

Almada. Rua Direita e Egreja de S Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Visitaremos a Incrível Almadense, fundada em 1848, numa visita guiada pelos dirigentes Luís Milheiro e coronel Carlos Guilherme.

Banda da Incrível Almadense, c. 1894 - 1896.
Imagem: Restos de Colecção

Na sala do bar ou noutra sala, sentamo-nos e ouviremos Romeu Correia a "falar" dos bailes de outrora;

Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, baile em 1959.
Imagem: Casario do Ginjal

das bandas filarmónicas; da saída de José Maria de Oliveira em 1894 (e que veio a fundar a Academia Almadense em 1895);

Banda da Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense, 1925
Imagem: Restos de Colecção

do corte entre as duas coletividades e das pazes em 1948;

da biblioteca onde na década de 40 conheceu e colaborou com Alexandre Castanheira e da colaboração que recebeu de António Henriques [Jornal de Almada (25 de março de 1972), Homens e Mulheres Vinculados às Terras de Almada (1978), Trapo Azul (1948)].

Romeu, o primeiro da direita, durante uma das visitas de Alves Redol a Almada, Arquivo da Academia Almadense.
Imagem: Luis Alves Milheiro, Romeu e a biblioteca da Academia Almadense

Contamos com a presença e testemunhos de Alexandre Castanheira, que celebra este ano o seu 90.º aniversário e do coronel Carlos Guilherme, filho de António Henriques.

À saída da Incrível indicaremos o Clube de Campismo de Almada e veremos um grande artigo que sobre ele escreveu Romeu Correia no Jornal de Almada.

Seguiremos para o Museu da Música Filarmónica.

Romeu vai "dizer-nos" que aí foi a casa onde nasceu o grande maestro Leonel Duarte Ferreira [Jornal de Almada (25 de março de 1972), Academia Almadense - Memória de 100 Anos (1995)].

Visitaremos, com o dr. João Valente, este museu, que guarda testemunhos das bandas da Incrível, da Academia (onde iremos no 2.º percurso) e de outras associações locais.

O Septimino de Saxofones da A.I.R.F.A.. Da esquerda 1.° plano: Maria Amélia. Ferreira, Luísa Avelar, Manuela. Avelar, Maria Pratas, Maria Ondina Pinto, Antónia Rodrigues e Aida Alves. Em 2.° plano: Hilário dos Santos Ferreira, Maestro Leonel Duarte Ferreira. e Américo Gonçalves Ferreira.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

No final assistiremos a um pequeno filme interativo, que refere o maestro Leonel Duarte Ferreira, a importância das bandas filarmónicas e que acaba com uma citação do escritor Romeu Correia.

Contamos com colaborações várias para dar voz aos excertos de Romeu Correia, com destaque para representantes do Conselho de Delegados da USALMA.

Organização das professoras Ângela Mota e Edite Condeixa.

Visita sem inscrições.
Basta estar às 14h30,de 5.ª feira, 23 de março,
em frente dos Paços do Concelho, junto à Incrível Almadense.



Tema:
Romeu Correia

Informação complementar:
Manuel J. C. Jerónimo, Leonel Duarte Ferreira (1894-1959)..., Universidade Nova de Lisboa, 2012