sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Grande passeio à Outra Banda (6 de 10)

Pouco o padre se molhou, 
A coisa não valeu nada, 

N'um instante s'enchugou, 
Com a famosa golada. 

Cacilhas, Caes e Pharol, ed.Tabacaria Havaneza, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Rindo foi sentar-se á prôa, 
Ao lado do seu Gambôa, 
Pucha do fuzil... petisca; 
Mas logo riam instantinho, 
Surge o tenente Coutinho, 
P'ra fiscalizar a isca.

Policia civil,  Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Bordallo Pinheiro

Ao bote manda dois guardas, 
De espadalhões e de fardas, 

(D. Francisca)

Que vem fazer este bando?

Vimos ver o contrabando, 
E d'essa isca acendida... 
Será já da permittida.

Grita o Gambôa bufando; 
"Aqui não ha contrabando, 
Não vivi, nunca passando-o, 
Não uso a falsa torcida! 
Isto em mim não são cantigas, 
O olho á vontade deite, 
Aqui ninguem tem bexigas, 
De agua ardente, nem de azeite. 

Se a curiosidade alastra, 
Por ordem de um tolo fino, 
Metta o nariz na canastra, 
Que traz restos do petisco."

(Grita o padre) 

Digam lá ao sor Coutinho, 
Que diz o padre José, 
Que vai no "bote-olaré"!
Sem uma pinga de vinho,

A mana assaz escamada,
As pequenas e a cunhada, 
E a môça, todas zangadas, 
Não querem ser apalpadas.

Lugar de atracagem em Belém, A.P.D.G., Sketches of Portuguese life (...).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O Alfredo, alegre ri, 
E pondo a mão na ilharga: 
Esclama:—"Vamos d'aqui! 
Larga! Larga! o bote larga!"

O Durão, vai pirá escôta
E junto ao padre e ao Gambôa,
Vai assentar-se na prôa,
A creada... (que marôta)!

Agora uma outra cousa, 
Metta-se aqui de permeio: 
Do Azevedo e do Sousa, 
Do Rodrigues e do Feio, 
Despediu-se a sociedade, 
Com abraços de amisade.

Adeuses... suspiros... e ais, 
E o bote larga do caes. 

Catraio no Tejo, década de 1900.
Canoa "Amor da Pátria" de Jerónimo Rodrigues Durão.
Imagem: almaDalmada

Sulcando o ameno rio 
Canta o padre ao desafio.

"Saiba você seu Gambôa, 
Que vou agora cantar, 
E a Lisboa hei do chegar, 
Com a cabeça já bôa. 
Aqui, direito na prôa, 
Igual ao Vasco da Gama, 
Do amor patrio tenho a chamma, 
Não vou descobrir a India, 
Deus esta viagem finde-a, 
Pondo-me dentro da cama."

Embarcação (canoa) Zinha, Costa da Caparica, passeio de barco, 1922.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

(Grandes gargalhadas)

(A mana)

De cantar tendo cubiça 
D'esta fórma s'esganiça:

"Joven Lylia abandonada, 
Por seu lindo ingrato amante, 
solharia e delirante, 
Passeava em seu jardim."

D. Francisca, contente, 
Tambem canta de repente: 

"Sentes além no retumbar 
Da serra...
O som do bronze que nos causa 
Horror?! 
É mais um ente que voou... 
Da terra! 
Mais um poeta que morreu... 
D'amor." 

(O Alfredo) 

Tambem em grande berrata, 
Dá mil vivas á frescata, 
E eis que começa a cantar, 
Em estylo popular: 

"Que seja á quarta, 
Que seja á quinta, 
Que se a á sexta,
0 mesmo é, 
Que seja ao sabbado, 
E ao domingo, 
Ah! ah! ah! Trilolé!"

Pontaleto de Cacilhas, José Artur Leitão Bárcia, 1905.

Ri muito o padre José!
E o que faltava alli só,
P'ra cabal... alamiré,
Era um bello sol-e-dó!


(1) Diário Illustrado, 13 de agosto de 1896

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Grande passeio à Outra Banda (5 de 10)

A grande trote o ranchinho, 
Ahi vem pelo caminho. 

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso, 1892.
Referencia: Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial
Imagem: Fernandes, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes

As gargalhadas, ferviam... 
Cada menina gritava... 
Dona Francisca, arrotava 
E o padre cambaleava... 
Quando o macho lhe zurziam, 
E o mesmo tropeçava.

Esbarra o burro da mana, 
Que se chamava: "O banana."

Logo muito espalhafato, 
Cae! Fica o vestido sujo... 
E perto do Caramujo, 
Perdeu a velha um sapato! 

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Imagem: Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos

Coitadita! Vinha assada, 
Do albardão do jumento; 
E em extremo empanturrada, 
Do substancial alimento. 

Trazia vermelho o béque, 
Pelo vinho que bebeu, 
Que ella achava muito bom, 
E sobre tudo barato; 
Perdendo álém do sapato, 
Juntamente com o leque, 
O immenso l'orgnon!

O Gamboa, a mana iguala, 
Também perdeu a bengala. 
Dona Francisca, essa um saco, 
Mais o veu de tarlatana, 
E o padre co'a carraspana, 
Entornou todo o tabaco!

Saibam mais... aqui não fica, 
A serie de variedades, 
Das tristes fatalidades!... 

A grande scena... a mais rica, 
Perdão! primeiro isto importa, 
A Cacilhas, tudo aporta, 
A creada um tanto torta, 
Fallava muito em amor, 
Com as meninas da casa, 
Os derriços pondo á rasa.

Todos gritam: "Ai! que horror!"
Porque havia um quarto de hora,
Que do caes se fora embora,
Já o ultimo vapor!

Vista tomada no porto de Cacilhas, face a Lisboa, Hubert Vaffier,  1889.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Eis se sente um vozeirão,
Sobre o caes a bom gritar,
N'um formidável berreiro;
Era o nosso catraeiro
O conhecido Durão,
Com pulmão que o ar atroa,
Que gritava,
E que berrava:
"O bote está a largar,
Quem quer ir para Lisboa!"

(As filhas) 

Ai, em bote não papá, 
Que me dá algum chilico... 
O mar muito bravo está... 
Eu cá com a tia fico.

(A mana)

De bote?! Jesus! que asneiras! 
Eu tremo só de pensar, 
Que havemos de atravessar, 
As p'rigosas bailhadeiras!

Typos de Catraeiros,
ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 23, década de 1900.
Imagem: Delcampe

O padre diz alegróte: 
"Bote... bote... venha o bote. 
Ou então uma falua... 
 Deus nos guia, á luz da Lua."

(D. Henriqueta)

Á luz da lua!... Que poesia! 
E começa com entono, 
Para a creada que ria... 
Recitando:

"Era no outono, 
Quando a imagem tua,
Á luz da lua,
Seductora vi! 
Lembras-te ainda, 
D'essa noite Elisa? 
Que doce brisa, 
Suspirava ali?!...

(O padre, gritando) 

Isso fez o Bulhão Pato,
Que eu respeito p'lo seu trato, 
P'lo seu brilhante talento!..
Q'reria vêr em S. Bento, 
Uma cabeça tão rica...
Um sábio que eu prézo tanto, 
Foi-se metter a um canto, 
Do monte de Caparica!!!

Bulhão Pato, Rafael Bordalo Pinheiro,
Album Glórias, 1902
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Bom: resmungára um magote; 
Mas tudo entrou para o bote: 
E no tinteiro não fica, 
A tal scena que foi rica!

Quando saltou para o bote,
O nosso padre José,
Q'rendo tirar o capote 
Ao pular... falta-lhe um pé, 
E bumba!—digo-o com magua, 
Cahe, ficando ae pés n'agua! 
Eia grita: "Meu Deus soccorro! 
Quem me acode! Jesus! morro! 
Valha-me o Céo, e S. Roque!"

Depressa deitam-lhe um cróque, 
Para o bote trepa então;
E quando a salvo se acha,
Solta grande gargalhada,
Dizendo: "Venha a borracha,
Que isto quer uma golada." 

Lisboa, Vista tomada de Cacilhas, ed. Martins/Martins & Silva, 7124, década de 1900
Imagem: Delcampe

E tudo foi abraçal-o, 
E tudo felicital-o!...


(1) Diário Illustrado, 12 de agosto de 1896

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Grande passeio à Outra Banda (4 de 10)

Ora chegados á quinta, 
O prazer geral requinta.

Uma barraca de comes e bebes, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

Debaixo de alto pinheiro, 
Todo o rancho prazenteiro, 
Se sentou: e a condessa 
Logo aberta foi depressa.

Grupos de arraial, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

Tiraram pois as colheres, 
Garfos, facas e palitos,
Riam-se immenso as mulheres...
Grande chuva de bons ditos, 
Com retumbantes risadas... 
As tres gallinhas assadas... 
Alli logo devoradas... 
Muita pilhéria e laracha... 
Para lavar o estomago, 
O nosso padre Luiz, 
Todo galhofa... n'um triz...
Lá se atirou á borracha. 

O dia da espiga, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

(Grita Gambôa) 
"Isto é melhor do que em casa! 
Viva a geral alegria!... 
As alegrias eternas!"
E cada filha pedia... 
Que lhe dessem uma ása, 
Comendo o Alfredo as pernas.

Dona Francisca, o pescoço... 
Outros o peito... um destroço! 
E tudo ria animado... 
E o Canastro era offertado, 
Ao burriqueiro, e ao moço.

Ora a mana que já estava, 
Com o Feio, de derriço, 
Sem saber que era casado, 
Toda delambida e bella, 
Dá-lhe, sorrindo, a moella, 
E uma roda chouriço. 

N'esta jovial cantata, 
Era tremenda a berrata, 
E grande era o borburinho! 
Todos de puc'ra na mão, 
A gritarem: "Venha vinho!"

A creada rindo então, 
Fazia ao padre gaifonas, 
A comer as azeitonas,
E a carne assada com pão. 

Gambôa fez um discurso,
Monumental, e d'escacha, 
O padre com a borracha, 
Não qu'ria passar por urso... 
Já com a penca encarnada,
Era golada... e golada... 
Dizendo: "Isto vai assim!"
E com a vista turvada, 
Berrava já em latim, 
Que nem na missa cantada! 

Nas hortas. À sombra de arvores, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

Que belleza!... que belleza!... 
Finda a boa sobremeza, 
Saberão os meus leitores, 
Que todos alli ficaram...
Tal e qual com os... "amores",
E lá riram, e dansaram.

Formou-se uma contradança, 
Bem de pressa, ao pé do tanque, 
Tocava a guitarra o Blanc, 
o cavaquinho o Bragança.

A mana avançando o passo,
De alegria dá um grito,
E ao seu feio... tão bonito,
Trava depressa, o braço.

Nosso Azevedo expedito, 
Que contentíssimo anda, 
Põe o charuto de banda, 
E dansa com Henriqueta, 
Delambida e de luneta,

O nosso Rodrigues tira, 
P'ra par "madama" Gambôa, 
Que pela dansa suspira, 
Na sociedade em Lisboa.

O quarto par é o Sousa,
Que a dar muita gargalhada,
Não se atirou a má coisa...
Pois se agarrou á creada.

Tudo dansa: tudo pula!
Tudo alli se vê a rir...
Só o Gambôa e o padre
Se deitaram a dormir:
Dizendo a rir a creada,
Para a sua querida ama: 
"Deixal-os, minha senhora, 
Aquella fructa quer cama."

Nas hortas. Debaixo da parreira, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

Mas o raio do petiz...
(Os rapazes são uns alhos!)
Accorda o padre Luiz... 
Acerta-lhe com dois bogalhos, 
Mesmo em cheio no nariz!

Jámais é eterno o gosto! 
Gamboa grita: "É sol posto, 
Vamos, vamos, minhas filhas,
Que ainda é longe Cacilhas,
Toca a montar a cavallo."

Padre Luiz, logo fal-o;
Mas como estava zaré.
No mofino do estribo, 
Quem diz que enfiava o pé?!

Foi preciso o burriqueiro, 
Ao vêl-o assim tão borracho, 
Pegar-lhe em pezo, e deital-o, 
Bumba! p'ra cima do macho! 

Nas hortas. À entrada da taberna, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

Eis grita o padre a cavallo: 
"Vou alegre... vou... deixal-o!
Luduvicus, pater a pé... 
Libera nos est dominé!
Arre! burros p'Azeitão,
Que os cazacas já lá vão!"


(1) Diário Illustrado, 11 de agosto de 1896

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Grande passeio à Outra Banda (3 de 10)

Lá no castelo de Almada,
Fica a "troupe" embasbacada.

Almada, Uma das muralhas do castelo, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 06, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Viram a vista de fama, 
Do esplendido panorama. 
E o padre pondo-se a pé, 
E abrindo o olho baço, 
Gritava: "Lá está a Sé... 
Mais o terreiro do Paço... 
A Penha de França... o Monte... 
A Graça ao lado... e defronte,
O zimborio da Estrella... 
Ih! Jesus! que vista aquella! 
Todos, todos... "ai, que encanto!" 
O Gamboa, diz: "Oh! mana, 
Olhe o forte de Monsanto,
Onde esteve o Gungunhana... 
Que vista esta tão bella...
Lá está acolá... Palmella.
E ali assim... Belem... 
Até se vêem os omnibus! 
A egreja dos Jeronymos.

Lisboa, Panorama do Rio Tejo, Alberto Malva, 14, c. 1900.
Imagem: Delcampe

A Inglaterra não tem, jóias,
Nem a França nem a Suissa,
Uns panoramas eguaes, 
De tão completa cubiça!
Olhem para todo este rio...
Que belezas naturaes! ... 
Olha a torre do Bugio, 
E a bahia de Cascaes!"

Notem que o rapaz dos burros, 
Esta, pois que não esqueça, 
Levava ás costas, no pau, 
Enfiada uma condessa, 
Com a petisqueira... mau!

Era o farnel: Carne assada,
Com batatas, estufada,
E tres gallinhas coradas,
Que é melhor não fallar n'isso,
C'o competente chouriço,
E pescadinhas marmotas,
D'estas de rabo na bocca;
Em quatro vidros, compotas,
Porém, fructa, muito pouca;
Porque dizia o Gambôa:
"Na Outra Banda ha á toa."

Chafariz do Pombal, Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Segue o cyrio triumphal,
Para o "Joaquim dos Melões", 
Pelo sitio dos Pombal, 
Onde os nossos figurões
E o padre no seu macho, 
Começam nas libações, 
Copo cheio, copo a baixo.

O Gambôa com a pressa, 
De saltar do albardão, 
Cai, e bate co'a cabeça, 
Logo ali no meio do chão! 
O rapaz, p'ra lhe acudir, 
Por bregeiro e maganão, 
Deixa cahir a condessa, 
Ao pé do caramachão, 
E tudo desata a rir 
Na maior animação.

Logo aquella boa gente, 
Lá do "Joaquim dos Melões", 
Excellentes creaturas, 
Que são todas attenções, 
E deff'rências as mais puras, 
Que eu amo sinceramente, 
Logo todos mui afflictos, 
Acudiram ao Gambôa, 
Chapinhando-lhe a cabeça, 
Com agua-ardente bem boa.

No Lazareto de Lisboa, Joaquim dos Melões, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Limpa-lhe o padre a poeira, 
E diz com sua voz fina: 
"Deixe provar a piteira, 
Sôra Dona Carolina, 
Eu também soffri abalo... 
E ella cheira... cheira... cheira... 
Cheira que é mesmo um regalo!"

Não faço d'isto segredo, 
Em Cacilhas agregou-se, 
A este rancho decantado, 
O senhor Julio Azevedo, 
Um cavalheiro estimado, 
De bondade todo cheio, 
Em companhia também, 
Do illustre senhor Feio 
Um puro homem de bem.

A Caminho do Pic Nic...
Imagem: Delcampe

Iam os dois na charrétte 
A trote na egua baia, 
Com o Sousa e o Rodrigues, 
Para a quinta d'Atalaya. 

Mas como era o Gambôa, 
Amigo d'este quartetto. 
Lá foram todos na pandega, 
No cyrio q'rido e selecto.

Amora Avenida Marginal Lado Sul Manuel Henriques Jr 01.jpg
Imagem: Delcampe

Pouco mais de meia hora, 
Com grande jovialidade, 
Tudo foi da Piedade, 
Até ao logar d'Amora: 
E tudo na melhor ordem, 
Sem ninguém dar uma raia, 
Abancou rindo e folgando, 
Lá na quinta d'Atalaya. (1)


(1) Diário Illustrado, 10 de agosto de 1896

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Grande passeio à Outra Banda (2 de 10)

Aporta ao Caes de Cacilhas, 
O barco com esta carga, 
Riam de mãos na ilharga, 
Loucamente ambas as filhas.

Barco a vapor a atracar em Cacilhas.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Um batalhão de cocheiros, 
E um rancho de burriqueiros, 
A gritar aos empurrões, 
Começam: "Patrões! patrões! 
Cá está o bello caleche, 
Do José d'Alcabideche, 
Com cavallos alazões."

Almada, Pharol de Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Os homens, então dos burros, 
Uns nos outros davam murros, 
Lá a gritarem aos centos, 
Dizendo muita gracinha, 
Como o Domingos Graxinha; 
"Cá estão os bellos jimentos, 
Só de uma cana, pimpões, 
Para a bella sociedaae, 
Ir n'um rufo á Piedade, 
Para o Jaquim dos Malões!"

E mal que desembarcaram, 
Todos logo os agarraram, 
Pucha daqui e dali, 
O padre Luiz não ri, 
Pois pizou-lhe o melhor calo, 
Um burriqueiro borracho, 
Que o q'ria pôr a cavallo, 
Em cima de um grande macho. 

O Gambôa com calor, Grita: 
"Isto não se atura! 
Uma vergonha! um horror!" 
Dando uma descompostura 
Em toda aquella imperícia, 
Apostrophando a policia, 
E senhor administrador! 

O janota de chapeu alto,  Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Bordallo Pinheiro

No meio pois d'estas scenas... 
De muita coisa arengada, 
Resolveram as pequenas, 
Ir tudo de burricada.

Olha vai tu Henriqueta... 
Vai aqui n'esta burrinha, 
Que tem optima cadeirinha, 
Toda chic... de muleta.

Gritava o Gambôa então: 
"Eu quero um burro valente 
Bem valente é que se quer, 
Aqui p'rá minha mulher, 
Porque é senhora doente. 
E para a mana, um burrão, 
Que não tenha joelheiras, 
Que ellas não sao cavalleiras.

Patrão! patrão! Ó patrão!
Vai aqui no meu "Cigano" 
O raio d'este garrano, 
Neja d'ir ao meio do chão,
Se o sabem levar na mão...

O saloio com alforges,  Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Bordallo Pinheiro

Isto é uma labareda! 
Melhor que o melhor cavallo! 
É n'este que o sôr Zagalo 
Vai á quinta da Sobreda. 

O padre... (que graça eu acho)! 
Lá se agarrou sempre ao macho.

No meio dos seus decoros, 
Solta um furioso berro, 
E começa a gritar: "Mau!"
Por ter o selim, nos loros, 
Um velho estribo de ferro, 
E outro grande pau!

O pequeno saltou logo, 
P'ra cima do Papa Moscas, 
E no burro... bumba!... fogo!...
Valentes calcanheiradas, 
Com as esporas de rôscas, 
N'um ferrageiro compradas, 
Com sanguinários intentos.

Para o moço dos jumentos, 
Grita o Gambôa: "Rapaz! 
Não te ponhas com espantos, 
Onde ha vinho aqui capaz?" 

É no Francisco dos Santos, 
E na Fonte d'Alegria, 
E também o ha no Ayres, 
Mesmo um vinhão! que fatia!

Rua Direita — Cacilhas, ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe, Oliveira

Grita o padre que par'cia, 
Mesmo a cavallo um macaco:

"Quem tem vinho de rachar,
É acolá o Marráco;
Parece até Malvaria!
Ou até o do Ginjal,
Um vinho monumental!
Do paço do Lumiar,
D'ir a cabeça pl'o ar...
Valente como um velhaco,
Que o conde vende a pataco!"


Domingo quatro petizes, 
Foram lá. Oh que felizes!
E beberam meio litro 

Dizendo agora os vereis: 
"Foi-se um vintém... acabou-se! 
Mas a gente consolo-se, 
Cada um por conco réis!"

Compremos lá tres borrachas,
Já que o vinho está na berra,
Vamos á loja do Serra,
Que tem bolos e bolachas.

Um burriqueiro casmurro, 
Chamado: o "José das Postas", 
Senta depressa n'um burro, 
Dona Francisca, que grita, 
Toda corada e afflicta, 
Quasi dando-lhe nm desmaio: 
"Filho! filho! minha filha! 
Apertem-me bem a cilha... 
A albarda joga e eu caio!" 

Confuzo o Gambôa, então
Diz á esposa: "Cautella! 

Que o diacho da barbella, 
É um cordel de pião!"

Isto aqui é um deleite, 
Um dia passa-se a rir, 
P'rá semana havemos vir, 
Ver a quinta do Alfeite, 
Que tem mil, antiguidades, 
Peço nas Necessidades, 
Ao commendador Ignacio, 
Que é como eu um vegete, 
O obsequio de um bilhete, 
Para vermos o palacio,

A mana foi n'um sendeiro, 
De amarella e azul albarda, 
Que par'cia um conselheiro, 
Exactamente de farda.

Almada, Largo do Poço em Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

E aqui parte o rancho bello, 
Na famosa burricada, 
Pela calçada de Almada, 
Em direcção ao Castello. (1)


(1) Diário Illustrado, 9 de agosto de 1896

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Grande passeio à Outra Banda (1 de 10)

Muita gente com certeza, 
Por ahi assim eu vejo. 
Sem ir gosar a belleza 
Da Outra Banda do Tejo. 
D'aquella margem tão linda, 
Que ha de vir a ser ainda, 
Uma segunda cidade, 
Esplendida, alli defronte, 
Quando a decantada ponte 
Fôr uma realidade. 

Lisboa, Estação Sul e Sueste, Alberto Sousa (1880-1961), 1910.
Imagem: Museu de Arte Contemporânea

Pois eu aconselho a todos, 
Que aos domingos, dias santos, 
E mesmo nos de semana; 
Vão em bella caravana, 
Risonhos, de alegres modos, 
Vêr os formosos encantos, 
A seducção tão fallada, 
As bonitas maravilhas 
Da velha villa de Almada, 
E do logar de Cacilhas. 

Cacilhas, aguarela de Alberto Sousa (1880-1961), 1914.
Imagem: Boletim "O Pharol"

Ainda na quinta feira, 
Aqui lhes garanto agora, 
Foi um grande rancho á Amora, 
Com variada petisqueira. 

As pessoas d'esta pandega, 
Tão fraternal e tao boa, 
Compunham-se do: Gambôa, 
Velho continuo da alfandega. 
A mulher: D. Francisca. 
As filhas: uma que é pisca, 
Outra esperta sardanisca, 
Chamada D. Henriqueta. 
Uma velhota jarreta, 
Que é a mana do Gamboa, 
Que sempre que embarca enjoa. 
O Alfredo, rapazelho, 
Ainda mesmo um fedelho, 
Filho de D. Francisca. 
E uma peça de uma bisca, 
Com amanteticas baldas, 
Que veio ama das Caldas, 
E hoje está por creada.

A ama das Caldas,  Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Bordallo Pinheiro


Também ia convidado, 
E todo alegre no rancho, 
O reverendo José Luiz, 
Gordo, de occulos no nariz, 
Estomago empanturrado, 
Seu collete acertoado, 
E relogio com corrente 
De prata, de bello toque, 
Uma figa por berloque, 
Tudo isto reluzente, 
Cara cheia, muito terna, 
Que come em qualquer funcção, 
Até um boi p'r'uma perna, 
Se elle o bispa, e se lh'o dão. 

O padre,  Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Bordallo Pinheiro

O bello cyrio notorio 
D'este bom familiorio,
Conjuncto de maravilhas, 
Embarca pois p'ra Cacilhas, 
N'um vapor do sór Burnay, 
Além no Caes do Sodré!

A mana, diz ao Gambôa, 
Que estava fallando ao Mattos, 
"Comprem bilhetes da proa, 
Porque custam mais baratos, 
E grande a differença é, 
Escusamos ir na Ré."

Vai depois com grande passo, 
E bordados de matiz, 
Deu depressa logo o braço, 
Ao padre José Luiz; 
Mas quando ia toda ancha; 
A olhar p'ra uns maraus,
Eis tropeça em dois degraus, 
Cahe! catrapuz! Sobre a prancha, 
Gritam todos: «Oh! diacho!» 
O Alfredo, ri a bom rir
Polo padre também ir, 
Quasi pela escada abaixo.

Oh, mana! diga-me, oh, mana,
Grita o Gambôa... 
(que abalo, lhe causou o trambulhão), 
"Você fez na testa um galo, 
Do tamanho de um capão! 
E o nosso padre Luiz, 
Não se afogou por um triz!"

Vapor Frederico Guilherme, c. 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Aqui n'esta situação, 
O malcreado petiz 
Ria como um toleirão.
Sulcando o formoso Tejo, 
O vapor Pescador vejo, 
E as ondas a uma e uma, 
Em ancias brotam das rodas,
Levantando nivea espuma, 
Graciosamente todas. (1)


(1) Diário Illustrado, 8 de agosto de 1896

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Defesa de Lisboa em 1810 (III)

O número de prisioneiros acumulou-se tanto que se tornou um sério inconveniente; porque, por alguma razão não aparente, o almirantado inglês não permitia que eles fossem transportados para Inglaterra nos navios de guerra, e os outros barcos não podiam ser dispensados.

Views in Spain and Portugal..., The Aqueduct (called os Arcos), with a distant view of Lisbon and the Tagus.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Ao mesmo tempo também o almirante Berkeley em cujo relatório, elaborado um ano antes, dizia que mesmo que o inimigo pudesse ocupar as alturas de Almada, não poderia provocar dano na frota no rio [v. Defesa de Lisboa em 1810 (II)], agora admitindo que estava errado, os engenheiros tiveram diretivas para construir linhas secundárias nesse lado.

Esboço do terreno da margem esquerda do Tejo, extendendo-se de Almada à Trafaria, entrincheirado como posição militar, cf. Journals of sieges carried on by the army under the Duke of Wellington, 1811-1814.
(Assinalam-se também o Vale de Mourelos interseptado por vedações e os esteiros no lugar da Piedade)
Imagem: Internet Archive

Outro mal formidável, proveniente da conduta da regência, era o estado do exército português. As tropas eram tão precariamente abastecidas que mais do que uma vez teriam desmobilizado, se não tivessem sido aliviadas pelos abastecimentos ingleses. 

Dez mil soldados de linha desertaram entre abril e dezembro, e as milícias e as ordenanças abandonaram as suas cores em números muito maiores; já que nenhum forte protesto poderia induzir a regência a pôr as leis em força contra os delinquentes, o que a princípio era por querer e que depois se tornou um hábito; então mesmo quando alimentados regularmente, pelos armazéns ingleses nas linhas, a deserção era alarmadamente grande.

Mesmo apesar desta má conduta que crescia de dia para dia, nem o patriarca nem o representante do príncipe regente deixaram de se opor.

A ordem para fortificar as alturas de Almada causou uma violenta altercação na regência, e lord Wellington, muito zangado, denunciou-a ao príncipe regente; e a sua carta produziu um tal ataque de ira no patriarca, que este insultou pessoalmente mr. Stuart, e ventilou a sua paixão na mais indecente linguagem contra o general.

Imediatamente após isto, o estado deplorável das finanças obrigou o governo a virar-se para o perigoso expediente das requisições em géneros para alimentar as tropas: e nesse momento crítico o patriarca, cuja influência era, por diversas causas, muito grande, tomou a ocasião para declarar que "não sofreria incómodos por concordar com pessoas que evidentemente não tinham algum outro propósito do que o de alimentar a guerra no coração do reino". [...]

No exército português, desde o mês de abril, as mortes foram 4.000, as desmobilizações 4.000, as deserções 10.000, os recrutas 30.000; os números foram a partir daí incrementados, mas a eficiência para grandes evoluções, apesar disso, decresceu. Os auxiliares espanhóis também, mal governados e turbulentos, estavam em desacordo aberto com os portugueses, e o seu general não era ele mesmo capaz na guerra nem capaz com aqueles que o eram.

Enquanto as alturas de Almada estivessem despidas, a margem esquerda do Tejo não poderia ser vigiada com menos de 12.000 homens [...]

Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden, Fieldmarshal The Duke of Wellington
Imagem: Cesar Ojeda

Se Massena perdesse mesmo que fosse só um terço das suas forças, o 9e Corps d'Armée poderia substitui-las. Se lord Wellington falhasse, as linhas teriam ido, e com elas toda a península.

Ele julgou que seria melhor ficar na defensiva, para fortalecer as linhas, e avançar suficientemente com os trabalhos em Almada; entretanto, acalmando as perturbações causadas pelo patriarca, para aperfeiçoar a disciplina nas tropas portuguesas, e melhorar a organização da milícia na retaguarda do inimigo. [...]

Calculou-se que antes do fim de janeiro mais de 40.000 tropas frescas cooperariam com Massena; e os preparos foram feitos de acordo com isso. Uma linha externa de defesa, desde Aldea Gallega [Montijo] to Setuval, estava já em estado avançado; Abrantes, Palmella, and St. Felippe de Setuval foram finalmente aprovisionadas; e uma cadeia de fortes paralelos ao Tejo foi contruida nas colinas, alinhada na margem esquerda, de Almada até à Trafaria [v. Defesa de Lisboa em 1810 (I)] [...]

A estadia de Massena em Santarém mostra o que 30.000 homens adicionais agindo na margem esquerda do Tejo poderiam ter feito, se tivessem chegado às alturas de Almada antes da descoberta do erro do almirante Berkeley: o abastecimento das provisões vindas do Alemtejo e de Espanha teria então sido transferido de Lisboa para os exércitos franceses, e a esquadra teria sido forçada a sair do Tejo; quando a miséria dos habitantes, os medos do gabinete britânico, as maquinações do patriarca, e a pouca chance do sucesso final, teriam provalvelmente induzido o general inglês a embarcar [...]

A carta do almirante George Cranfield Berkeley (1753-1818).
Imagem: Berryhill & Sturgeon

as linhas de Almada estando inacabadas, a imprudência de deixar o Tejo sem guarda, perante um inimigo que possuia 80 barcos grandes, excluindo aqueles que formavam as pontes no Zêzere, é aparente [...]

Views in Spain and Portugal...,  Punhete, at the junction of the river Zezere with the Tejo, Estremadura.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Sob a noção de que a vinda de Napoleão era provável, o general inglês, com a prudente característica, virou a sua atenção para a segurança deste antigo refugio dentro das linhas, e como tal, urgentemente pediu ao governo para pôr o forte em ordem, reparar as estradas, e restaurar as pontes destruídas durante a invasão de Massena.

Views in Spain and Portugal...,  View of the Duke of Wellington's Lines covering Lisbon.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Um número acrescentado de trabalhadores foram também postos nas linhas, já que os engenheiros nunca cessaram de melhorar as da margem norte do Tejo, e na margem sul, as linhas duplas de Almada, foram continuadas numa escala gigantesca. (1) 


(1) William Francis Patrick Napier, History of the War in the Peninsula and in the South of France, London, G. Routledge, 1882

Leitura relacionada:
Cardozo de Bethencourt, Catalogo das obras referentes á guerra da peninsula, Lisboa, Academia das Sciências, 1910
William Granville Eliot, A treatise on the defence of Portugal..., London, T. Egerton..., 1810
Papers on subjects connected with the duties of the Corps of Royal Engineers Vol. III, London, J. Weale, 1837

Leitura relacionada:
The dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington